CARAMURÚ - CANTO VIII

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Caramurú, de Frei José de Santa Rita Durão

Caramurú - Poema Épico do Descobrimento da Bahia
de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, 1781.
Cultura, São Paulo, 1945.

CANTO VIII

I

Três vezes tinha o sol no giro oblíquo
A carreira dos trópicos voltado,
E três de Europa pelo clima aprico
Tinha as plantas o Abril ressuscitado,
Depois que do Brasil se tinha rico
À França o nobre Diogo transportado,
Buscando nas viagens meio e lume
Com que reforme o bárbaro costume.

II

Mas da mísera gente na lembrança,
Que lhe excita da esposa a cara imagem,
Meditava deixar a amiga França,
Repetindo a brasílica viagem.
Na generosa empresa não descansa
De instruir a rudeza do selvagem,
E cuida com razão que é humanidade
Amansar-lhe a cruel barbaridade.

III

Enquanto nau e embarque negoceia,
Do amigo Du-Plessis solicitado,
Foi-lhe do rei francês proposta a idéia
De erguer as lizes no país bascado.
Terás (lhe disse, e é fácil que se creia,
Que lho dizia do seu rei mandado),
Terás da França auxílio e tropa imensa,
E, maior que o serviço, a recompensa.

IV

Que, se o empenho te ocupa generoso
De amansar do gentio a mente impia,
Trazendo a França um povo numeroso,
Melhor se amansará na companhia;
Que engano fora à Europa pernicioso,
Quando colônias derramando envia,
Extinguir sem remédio a infeliz gente
E despovoar-se com a tropa ausente.

V

Desta arte Roma o império seu fazia,
Que, as colônias pelo orbe derramando,
Do país conquistado outras unia
Com que ia a falta própria reparando.
Num século, que o bárbaro vivia,
Na grã-Roma romano ia ficando,
E, neste arbítrio de pensar profundo,
Foi mundo Roma e foi romano o mundo.

VI

Este meio, portanto, eu te sugiro, (1)
Que se a tua prudência hoje executa,
Verás em pouco tempo, como aspiro,
Francesa pelo trato a gente bruta.
Vive sempre brutal no seu retiro
Quem ninguém comunica e nada escuta,
Nem o selvagem tirarás da toca,
Se outro país náo trata e o seu não troca.

VII

E entanto que o terreno nosso habita,
Transmigrada a infeliz gentilidade,
A gente, que perdemos infinita,
Suprirá com comua utilidade.
Assim a agricultura mais se excita,
Cresce a plebe no campo e na cidade,
E a turba inerte, que corrompe a terra,
Ou se deixa emendada, ou se desterra. »

VIII

Disse o francês prudente, e o nobre Diogo,
Leal à amada pátria, respondendo,
Sábio projeto dás (replicou logo)
Sobre a população; nada o contendo.
Mas não posso convir no exposto rogo,
Sendo fiel ao rei, português sendo,
Quando o luso monarca julgo certo
Senhor de quanto deixa descoberto.

IX

Vivendo ex lege um povo na anarquia,
Tem direito o vizinho a sujeitá-lo,
Que a natureza mesma inspiraria
Ao que fosse mais próximo a amansá-lo.
Deixo que o céu parece que o queria, (2)
Dando a Cabral o instinto de buscá-lo,
E o ser em caso tal comum conceito,
Que quem primeiro o ocupa tem direito.

X

E, sem que ofenda a França a minha escusa,
É bem que esta conquista a Lísia faça;
Mas, enquanto a Bahia o não recusa,
Ser-vos-á no comércio a melhor praça.
Cópia de drogas achareis profusa,
E o lenho precioso ali de graça;
E, durando eu na pátria obediença,
Serei francês na obrigação e agência. »

XI

Admirou Du Plessis no peito nobre
O generoso ardor e o pátrio zelo,
Que a ilustre condição no obrar descobre
Novo motivo para mais querê-lo;
Sem mais receio que o contrário ele obre,
Na nova expedição quer sócio tê lo.
Mas, antes de embarcar-se, o herói prudente
Avisa o luso rei da empresa ingente.

  XII

Já pelo salso oceano navega
A franca nau, e o Cabo se divisa
Donde a Europa no oceano ao termo
Tido do antigo nauta por balisa.
A terra ali se vê que o Minho rega,
Correndo a costa da feliz Galiza;
E o rumo então seguido do ocidente
Ao meio-dia se navega ardente.

XIII

Não longe do equador, o mar cortava,
Quando Paraguassú, já Catarina,
Como era seu costume, atenta orava,
Implorando o favor da Mão Divina;
E eis que à vista da turba, que a observava,
Enquanto adora a majestade trina,
Em sono fica suspendida e absorta,
E algum cuida que dorme, outro que é morta.

XIV

Brilha no aspecto um ar do afeto interno;
Mas, em funda abstração com doce calma,
Bem se lhe vê pelo semblante externo
Que ocupa em grande objeto a feliz alma.
Vê-se nela arraiar do lume eterno,
Que no céu goza quem já logra a palma,
Admirável vislumbre, que suspende
E infunde um pio afeto em quem o atende.

XV

Assim por longas horas abstraída
Deixava o caro esposo na ansiedade,
Se era sono, em que estava suspendida,
Se era efeito da cruel enfermidade;
Ora suspeita que perigue a vida,
Ora na celestial tranqüilidade,
Crê que do claro empíreo habitadora
Imortal sobre o céu reinando mora.

XVI

Até que, a si tornada docemente,
Corre a turba coa vista em grato giro;
E, como quem esta aura ingrata sente,
Rompe os longos silêncios dum suspiro.
« Oh! doce (disse), oh! pátria permanentel
Que escuro ar parece que respiro!
Feliz quem contemplando o céu formoso,
Vive no seio do celeste esposo! »

XVII

Pasmado Diogo e a multidão que a ouvia,
Calam todos no assombro de admirados:
Nem já duvidam que visão seria
Em que ouvira os mistérios revelados.
« Quando ocultos segredos Deus confia,
Não devem ser (diz Diogo) propalados;
Mas. se em parte, como este, é manifesto,
Temerário não sou, se inquiro o resto.

XVIII

Narra-nos, feliz alma, a visão bela!
Quem sabe se por ti nos manda aviso
A Providência, que ao governo vela,
Do mortal nos seus fins sempre indeciso!
Não nos cales entanto o que revela
Por nosso lume, o excelso Paraíso,
E a nossos rogos com memória pronta,
Dizendo quanto viste, tudo conta. »

XIX

Calaram todos com ouvido atento,
Pendendo da expressão de Catarina;
E, tomando na popa em roda assento,
Dão-lho sobre um canhão, que ao bordo inclina.
« Mandais-me (a dama disse) que o portento
Haja de expor-vos da impressão divina:
Quem poderá contar coisa tão alta,
Quando o lume cessou, a ciência falta?
 XX

Nem inculco em meu sonho um sacro instinto,
Que tudo fingir pode a fantasia;
Porque a imagem talvez, que nalma pinto,
Por força natural se fingiria.
Pode ser, se pressaga a idéia sinto,
Que, sem extraordinária profecia,
Anteveja o sucesso, o tempo e o prazo,
E depois não suceda, ou seja acaso.

XXI

Vi, nao sei se era impulso imaginário,
Um globo de diamante claro e imenso
E nos seus fundos figurar-se vário
Um país opulento, rico e extenso;
E, aplicando o cuidado necessário,
Em nada do meu próprio o diferenço:
Era o áureo Brasil tão vasto e fundo,
Que parecia no diamante um mundo.

XXII

Fixo os olhos atenta no estupendo
Milagroso espetáculo que via
E em três léguas de boca vi correndo
Por doze de diâmetro a Bahia.
Seis rios pelo golfo discorrendo,
Engenhos, povoações que descobria,
Eram como ornamentos da cidade,
De que se ergue no plano a majestade.

XXIII

Parecia em seis bairros dividida,
Com duas praças de extensão formosa,
Fortaleza ali vi na barra erguida,
Outra a parte de terra majestosa;
A enseada por oito defendida,
E outra em Taparica poderosa;
Duas casas de pólvora e na entrada
Vi-me a mim de uma delas retratada.

XXIV

Dentro a um templo magnífico se via
De seus prelados turma numerosa,
De que um às mãos dos bárbaros morria,
Outro a espada cingia valorosa.
Muitos da alta virtude os matos via,
Com caridade discorrer zelosa,
Sem poupar tempo, estudo, ou vida, ou gasto,
Por propagar a fé no sertão vasto.

XXV

No grão-palácio em tintas retratados
Os que o governo do Brasil tiveram,
Os Sousas na Bahia desantados,
Os nobres Costas, que depois vieram;
Mas entre outros na guerra celebrados,
Por troféus que vencendo mereceram,
Mendo de Sá de gloriosa fama,
Que pai da pátria no Brasil se aclama.

XXVI

Deste era prole o intrépido Fernando,
Que ali vi fulminando a forte espada,
E contra a feroz gente pelejando,
Deixou a morte com valor vingada.
Mas, da Bahia os olhos levantando,
Vi discorrer no mar potente armada,
Que, as ilhas ocupando e a vasta terra,
Movia no Brasil funesta guerra.

XXVII

Parecia-me a frota belicosa
Francesa gente, que o Brasil tentava
Pedro Lopes de Sousa em furiosa
Naval batalha o mar lhe contestava;
Noutra ação com esquadra mumerosa
Luís de Melo e Silva pelejava;
Cristóvão Jacques, que este mar corria,
Dois navios lhe afunda na Bahia.

XXVIII

Era de França, sim, a adversa gente;
Mas por culto inimigo ao rei contrária,
E ao rito Calvinístico aderente,
Enviava ao Brasil tropa adversária.
E, protegida da facção potente
Com as forças e armada necessária,
Queriam para a infanda cerimônia
Fabricar a Calvino uma colônia.

XXIX

Cavalheiro de Malta e franco nobre
Era Villegaignon de forte peito
Soldado antigo, que o valor descobre,
E entre os huguenotes do maior respeito.
De mil promessas o partido cobre,
Havendo-o a empresa do Brasil eleito;
E, abonada de um chefe de esperança,
Dá-lhe a mão a heresia em toda a França.

XXX

Este vi navegando a Cabo Frio,
Seguido de outras naus a forte empresa;
E que, tratando afável co gentio,
Explorava do sítio a natureza;
Mostrava aos naturais animo pio;
E argüindo-lhe a gente portuguesa,
Induz a nação bruta a que lhe assista
Na empresa do comércio e da conquista.

XXXI

Voltou a França o Cabo diligente,
Tendo de ricas drogas carregado,
E, convocando às naus armada gente,
Torna de turba ingente acompanhado.
Nem tarda do sertão cópia potente
De um povo, que, nas armas aliado,
Por amigo estimava mais sincero,
Menos inculto sim, porém mais fero.

XXXII

Ali Villegaignon, que o troço aloja,
Às  gentes do sertão se confedera,
E toda a costa a dominar se arroja,
De onde os nossos expulsar já espera.
De seu comércio o português despoja
Na fértil Paraíba, em que útil era;
Nem há na costa do Brasil enseada
Que o huguenote não tenha bloqueada.

XXXIII

Mendo de Sá, que adverte no perigo,
Três naus que em guerra cuidadoso armara,
Com oito de comércio tem consigo,
Além das que em socorro convocara;
E por ter força igual às do inimigo,
Sobre longas canoas, que ajuntara,
Guia contra os tamoios prepotentes
Do bravo Carijó turmas valentes.

XXXIV

Nhigheteroi se chama a vasta enseada,
Que estreita boca, como barra encerra,
Fechando em vasto porto à grande armada,
Um lago, que em redondo cinge a terra.
Vê-se ilha penhascosa sobre a entrada,
Com fortaleza, que, disposta em guerra,
Por boca dos canhões rumor fazendo,
Fechava a barra ao valoroso Mendo.

XXXV

Era a ilha de rochas guarnecida,
Que em torno tem por natural muralha,
Donde a força das balas rebatida
Faz inútil dos lusos a batalha.
Três dias foi dos nossos combatida,
Sem que o fogo incessante aos nossos valha,
Até que, fatigado o invicto Mendo,
Invade à escala vista o forte horrendo.

XXXVI

Entre as frechas e balas destemido
Na penha o português trepando salta,
E, deixando o francês esmorecido,
Degola, mata, fere, invade e assalta.
Nem do antigo valor cede esquecido
O francês animoso, até que, falta
De sangue a brava gente na contenda,
Faz a perda e cansaço que a ilha renda.

XXXVII

Nem mais demora teve o invicto Mendo
Ao ver a gente adversa dissipada,
E, a excelsa fortaleza desfazendo,
A costa visitou na forte armada.
E tudo ao nome seu sujeito havendo,
A Bahia tornou, que, iluminada,
Entre o som do clarim e alegre trompa,
Em tiunfo a Mendo recebeu com pompa.

XXXVIII

Mas a facção do hugnote, enfurecida,
Villegaignon potente ao Brasil manda,
Que, a ilha recobrando já perdida,
Guerra intenta fazer por toda banda.
Vê-se a nossa marinha combatida,
E a forte esquadra, que o francês comanda,
Dominante no oceano por modo
Que impedia o comércio ao Brasil todo.

XXXIX

Mais não tolera a lusa monarquia,
Que, ao rei cristianíssimo aderente,
Contra a rebelde, herética porfia,
Armada põe na América potente.
Chefe Estácio de Sá prudente envia,
De válidos galeões com forte gente,
Que, o hereje expulsando da enseada,
Deixe nova cidade ali fundada.

XL

Obsequioso abraçava o claro Mendo
O valoroso chefe seu conjunto,
As forças de Bahia unido tendo
As que trouxera sobre o mesmo assunto;
Contra os esforços do tamoio horrendo
Acomete o rebelde em liga junto,
Incorporando à armada lusitana
Vasto esquadrão da turba americana.

XLI

Chama-se Pão de Açúcar o penedo,
Em pirâmide as nuvens levantado,
Onde de um salto tinha já sem medo
A turba militar desembarcado.
Nadava pelo mar vasto arvoredo
Do gentio em canoas habitado;
E do ardente francês luzida tropa,
Que hábil na arte de guerra fez a Europa.

XLII

Destes o luso campo acometido
De dardos, frechas, balas se embaraça,
Em sombra o seio todo escurecido,
As naus ocultam nuvens de fumaça;
E ao eco dos canhões entre o ruído,
Tudo está cego e surdo em campo e praça;
E no horrível relâmpago das peças
Caem por terra os bustos sem cabeças.

XLIII

Voam as naus de chamas ocupadas,
Enchendo a enseada do infernal estondo,
As canoas dos nossos abordadas,
E os galeões, que em linha se vão pondo.
Os golpes, que retinem das espadas,
O golfo, que arde em chamas em redondo,
Eram na terra e mar em sangue tinto
Um abismo, um inferno, um labirinto.
 

XLIV

Depois que largo tempo em márcio jogo
Dura a batalha com comum perigo,
Cessando o impulso do contrário fogo,
Todo o estrago aparece do inimigo:
Tinha cedido da contenda logo
Receoso o tamoio do castigo-;
E os franceses, que as naus mal sustentavam,
Entre as penhas o asilo procuravam.

XLV

Não cessa o bravo Sá contra o gentio,
E a forte tropa pelo mato avança;
Porque, batendo o orgulho e insano brio,
Se apartasse o sertão da infame aliança,
Nem receia o tamoio o desafio,
Tendo no seu valor tanta confiança,
Que. fugindo da aldeia ao mato e gruta,
A liberdade ao português disputa.

XLVI

Era áspero o combate e lenta a guerra,
E sem efeito o assédio ao francês posto
E o bárbaro, embrenhado dentro a terra,
Tinha emboscada ao português disposto.
Mendo, que nalma o grão cuidado encerra,
Tendo de Estácio socorrer proposto,
Paz levas, busca naus e a gente incita,
E em auxilio dos seus partir medita.

XLVII

Já dobra o frio Cabo a esquadra ingente,
E à vista do penhasco lança a amarra..
Pasma o rebelde, vendo a armada à frente
Ocupar numerosa a atreita barra.
Une-se a frota ali da lusa gente,
E os mútuos casos vanglorioso narra
Irmão à irmã e o filho ao pai, festivo
Por ter chegado são e achá-lo vivo.

XLVIII

Chega aos braços de Estácio o forte Mendo,
E por festiva salva estrepitosa
Faz que vomite o bronze o fogo horrendo
Contra a ilha, que avistam penhascosa;
E, largamente consultado havendo
Os dois chefes da empresa gloriosa,
Contra o penedo tentam no mais alto,
A peito descoberto, um fero assalto.

XLIX

Vêem-se entre as penhas formidáveis bocas
De canhões e mosquetes trovejando,
E nas quebradas espantosas rocas
Do bárbaro tamoio o imenso bando.
Muitos ali das ásperas barrocas
Vão os nossos fuzis precipitando,
Outros da rota penha em meio as gretas
 Cobriam contra nós todo o ar de setas.

L

Não cessava o rebelde belicoso
Com vivo fogo o assalto rebatendo,
Enquanto sobe o luso valoroso,
Trepando em fúria no penedo horrendo,
Quem no meio do impulso impetuoso
Cai na ruína o próximo envolvendo,
Quem, ferido da frecha, ou veloz bala,
Do mais alto da penha ao mar resvala.

LI

Todo o penhasco em fogo se fundia,
Enquanto o mar em roda em chamas ferve
Entre fracasso e fumo que safa,
De nada o ouvido vale e a vista serve.
A terra toda em roda estremecia;
E, sem que a água do incêndio se preserve,
Parecia ferver do fogo insano,
Escondendo a cabeça o Padre Oceano.

LII

Qual do Vesúvio a boca pavorosa,
Quando rios de fogo ao mar derrama,
Arroja ao ar com fúria impetuosa
Parte do vasto monte envolta em chama,
A cinza cobre o céu caliginosa,
E o mortal, espantado e tremebundo,
Crê que o céu caia e que se funda o mundo.

LIII

Tal Villegaignon na penha dura
Do horrífico trovão freme a tormenta,
E a chama entre a fumaça horrenda escura
Do infernal lago; as furnas representa.
Porem do próprio fumo na espessura
Apontaria, que rebelde intenta,
Evita o português, que ataca incerto
A escala vista e a peito descoberto.

LIV

E já no grão-penedo tremulavam
As  lusas quinas pelo forte Estácio,
E as lizes do penhasco se arrancavam,
Donde a Villegaignon se ergue um palácio.
Pela roca os tamoios se arrojavam,
E o valor luso dando inveja ao Lácio,
A guarnição francesa investe à espada,
E obriga em duro choque à retirada.

LV

O valente francês, que a bélica arte
Já com valor na Europa professara,
O peito à fuga opõe por toda a parte;
E, vendo Estácio só junto ao estandarte,
Que por chefe lusos se declara,
Cuida de um golpe terminar a empresa
No general da gente a portuguesa.

LVI

Não desfalece o capitão valente;
E, de um e de outro lado acometido,
Rebate as balas sobre o escudo ingente,
E arroja-se ao rebelde enfurecido.
Lebrum despoja do mosquete ardente,
Com que muitos de um golpe tem ferido,
Outros do íngreme posto ao mar despenha,
E alguns expulsa da soberba penha.

LVII

E já fugia a tímida caterva,
Quando Rochefoucauld, que a pugna iguala,
Donde a viseira descoberta observa,
Lhe aponta desde longe ardente bala.
Caindo o herói, na espada, que conserva,
Adora humilde a cruz, e perde a fala.
Banha-se em sangue o chão, e em tanta gloria
Regada a terra produzia vitória.

LVIII

Porque, enquanto em segui-lo divertido,
Abandona o francês a fortaleza,
Tinha parte do exército subido,
A dar fim com vitória à forte empresa.
Admira Mendo o braço esclarecido,
E, bem que do sobrinho o valor presa,
No juvenil ardor notou magoado
O tomar chefe as partes de soldado.

LIX

« A pátria (o nobre Sá diz lagrimando)
Vitima irás da fé, da liberdade,
Vigor no sangue heróico à terra dando,
Donde se erga imortal nova cidade.
O caso acerbo aos pósteros contando,
Tenham seus cidadãos da heroicidade
Cara lição no fundador primeiro,
Glória eterna do Rio de Janeiro. »

LX

Tal nome deu á enseada no recordo
Do mês que ilustre foi por acaso tanto,
E a cidade deixou com justo acordo
A clara invocação de um mártir santo.
E, havendo as tropas recolhido a bordo,
Descansadas do bélico quebranto,
Faz imortais no tempo transitório
Os correias e Sás no novo empório.(3)

LXI

Entanto do tamoio a gente bruta,
Mais feroz sempre na marcial contenda,
Contra a nova cidade em fera luta
Movia guerra pelo mar tremenda.
Mas Mendo para a bárbara disputa
Faz que um chefe tapuia o mar defenda:
Ararigboia aos seus nomeia a fama,
Martim Afonso por cristão se chama.

LXII

Príncipe foi nas tabas respeitado,
Que, ao nome português na guerra adito,
Tinha com Mendo os seus capitaneado,
Sempre contra o tamoio o campo invicto.
Quatro guerreiras naus tinha avançado
O rebelde, depois do grão-conflito,
E, em oito lanchas Ararig buscando,
Do Cabo Frio a ponta iam dobrando.

LXIII

Saltam da noite no silencio escuro
As belicosas mangas guarnecidas
De imensas chusmas do tamoio duro
Que obrar deviam na campanha unidas;
E, enquanto tem o campo por seguro,
Jaziam pelas praias estendidas,
Para investir coa luz, que já arraiava,
A aldeia Ararig, que os esperava.

 LXIV

Mas o bravo tapuia belicoso,
Antevendo o descuido do inimigo,
Busca o manto da noite insidioso,
Para investi-lo no noturno abrigo.
Convoca os seus guerreiros animoso,
E, sem dizer-lhes mais do seu perigo,
Depois que um breve espaço os olhou mudo,
Disse cheio de ardor, batendo o escudo:

LXV

« Sus valorosa, intrépida caterva!
Que esperamos no nosso alojamento?
Acaso até que o campo em chusma ferva
E nos busque o francês no próprio assento?
Se por espia, que o seu campo observa,
Que dorme sobre as praias desatento,
Onde, se o surpreendermos de improviso,
Sentirão todo o dano antes do aviso.

LXVI

Basta que em marcha procedais quieta,
E que, invadindo a turba descuidada,
Não cuideis de empregar a bala, ou seta,
Mas que tudo leveis à pura espada;
E, quando o vasto campo se acometa,
Deixando-lhe às canoas livre entrada,
Antes que o ferro vibre os seus reveses,
Desarmai, se puderdes, os franceses.

LXVII

Chamam corpo da guarda onde o soldado
Costuma pôr as armas nas vigias;
Ali correi com ímpeto apressado,
Seguindo o passo sempre das espias.
Que nada o francês pode desarmado,
E, sem as chamas que derrama ímpias,
Ficara desde o ímpeto primeiro
Nas mãos da nossa tropa prisioneiro.»
 

LXVIII

Disse o astuto Ararig, e a lento passo
Cada um pela brenha vai disperso,
Devendo a dado tempo e a certo espaço
Qualquer unir-se em batalhão diverso.
E, achando em sono descuidado e lasso,
em sentinelas ter, o campo adverso,
Um a um, pé ante pé, em marcha tarda,
Assaltam juntos a sopita guarda.

LXIX

Juntas as armas de improviso apanham,
Matando as guardas meio adormecidas;
E, depois que a armaria toda ganham,
Quantos as vêm buscar perdem as vidas.
O sono com as mortes acompanham;
E outros, vendo sem armas as partidas,
Porque a causa não sabem do tumulto,
Buscam as lanchas, por fugir do insulto.

LXX

Ararigboia, como um raio ardente,
Uns dormindo degola pela areia,
Outros sem armas, que rendidos sente,
Prisioneiros com cordas encadeia.
A fiel tropa pela praia ingente
Toda deixa a campanha de horror cheia,
Cobrindo de cadáveres o plano,
Alagado coa espada em sangue humano.

LXXI

E já nos céus risonha aparecia
A estrela dalva as trevas apartando,
E com trêmula luz o incerto dia
No extremo do horizonte ia arraiando,
Quando o estrago da noite aparecia,
E preso ou morto o franco demonstrando,
Nem as lanchas se salvam, que a vazante
Em seco as pôs na mão do triunfante.
 

LXXII

Não cessava Martim contra a espantada
Multidão de tamoios, que se embrenha;
E, deixando-lhe a aldeia derribada,
Não sê-lhe esconde algum no mato ou brenha.
Muitos no Averno lança com a espada,
Fugindo outros ao mar n'água despenha,
Nem fulminando a massa a algum perdoa,
Oculto na cabana ou na canoa.

LXXIII

Fez este marte do Brasil costantete
A nação dos tamoios tanta guerra,
Que ele só com a espada fulminante
Lhe extingue o nome e despovoa a terra.
 Mais não ousa o rebelde mariante,
Enquanto Ararigboia no campo erra,
Desembarcar na costa, sem que o bravo
O deixe combatendo, ou morto, ou escravo.

LXXIV

Vi que do excelso trono vinha entanto
Uma augusta donzela adormecida,
De quem brilhava sobre o aspecto santo
A piedade, a abundância, a ciência, a vida.
Do seio derramava do áureo manto
A opulência no mundo apetecida,
E, logo que foi vista sobre a terra,
Submergiu-se no Averno a fausta guerra.

LXXV

Era a divina paz, que o céu nos manda,
Prêmio de um cetro, que da fé zelante
Propaga o santo culto onde comanda,
E as leis defende da justiça amante.
Sem os estragos de uma guerra infanda.
Gozará o Brasil de paz constante
Por setenta anos de mm governo justo.
Tendo tranqüila a terra e o mar sem susto.
 

LXXVI

Nem mais a espada e bomba pavorosa
Se ouvirá na marinha e sertão vasto;
A voz só do Evangelho poderosa,
Simples, sem artifício, indústria ou fasto,
A semifera gente viciosa
No jugo conterá de um temor casto;
E às mãos dos seus apóstolos se avista
Com as armas da cruz feita a conquista.

LXXVII

Mas vi em tanto lusitano império
Na Líbia ardente em sangue submergido,
E o seu domínio no indico hemisfério
Do batavo nas águas invadido.
E, ou por descuido do governo espério,
Ou de mil contratempos combatido,
Cedeu no vasto mar por toda a banda
O império do Brasil à fria Holanda.

LXXVIII

Dezesseis longos séculos contando,
Com anos vinte quatro a vulgar era,
Vi a batava esquadra o mar sulcando,
Onde Wilhekens general modera.
Petre Petrid os mares assombrando
Por almirante aos náuticos se dera
Poder que à índia navegar fingia,
E contra a expectação veio à Bahia.

LXXIX

A fonte descobri da excelsa praça,
As armas governando o bom Furtado,
Que. antevendo os efeitos da desgraça
Tudo dispunha com valor frustrado.
Convoca quantos encontra e tudo abraça
Por opor-se ao perigo ameaçado;
Mas dissipa-se a gente sem batalha,
Por faltar não valor, mas vitualha.

LXXX

Dispunha assim o batavo experiente,
Antevendo que a turba mal unida,
Sem cauta providência que a sustente,
Esfriando no ardor toma a fugida;
E, vendo a multidão menos freqüente
E a plebe na tardança esmorecida,
Quando menos o espera a chusma fraca,
Ocupando um castelo, o povo ataca.

LXXXI

Ruiter e Duchs com legião potente
A porta invadem de S. Bento em fúria;
Mas, rebatidos de impressão valente,
Cessam, fugindo da intentada injúria.
Mas tão funesto horror concebe a gente,
Que a guerra ignora com profunda incúria,
Que. quando faz que Ruiter não se arroje,
Deixa o terreno e do vencido foge.

LXXXII

Furtado de Mendonça, que não vira
Jamais do medo vil a fronte escura,
Com setenta semente a face vira,
E sem mais que o seu peito a praça mura:
O amor da pátria, que o furor Ihe inspira,
Faz que, da vida desprezando a cura,
Se arroje o luso ao batavo que o inunda,
E um fira, um despedace, outro confunda.

LXXXIII

Mas, vendo na manhã que o céu descobre
A cidade do povo abandonada,
Nem mais que o peito de Furtado nobre
Com poucos dos setenta na esplanada,
Teme que num só peito o valor sobre,
E que, deixando a empresa retardada,
Socorro venha donde bom partido
Ao bravo chefe se ofereceu rendido.

LXXXIV

Não tarda a fama a divulgar voando
Da capital brasílica o sucesso,
Enquanto o belga, que Ihe ocupa o mando,
Recolhe da vitória o imenso preço.
Treme em Madrid o trono, receando
Que o bélgico leão, com tanto excesso,
Prostre o de Espanha e, como o vulgo narra,
No México e Peru Ihe imprima a garra. »

LXXXV

Cobre-se o mar de esquadra numerosas,
Move-se a lusa e hispana fidalguia,
Vão-se embarcando legiões famosas,
Todo em náutica chusma o mar fervia.
Fradique as naus hispanas poderosas,
Menezes as de Lísia prevenia,
Vendo-se terra e mar, no caso incerto,
De petrechos, canhões e armas coberto.

LXXXVI

Já pela barra entrava da Bahia,
Com sessenta e seis naus soberba a armada,
Doze mil homens de alta valentia
Ocupavam sobre elas a enseada,
De tanto nome em militar porfia,
Que a guarnição da praça, de assombrada,
Bem que finja valor nesta conquista,
Antes que ao ferro, se Ihe abate à vista.

LXXXVII

Dispõe-se em meia lua a armada inteira,
Cerrando a fuga ao belga esmorecido;
Ocupa o forte exército a ribeira
Em dois quartéis aos lados dividido,
Mas o batavo Quif na ação primeira,
Tendo o campo a Fradique acometido,
Com sortida deixou no ardor insana
Suspensa a lusa gente e rota a hispana.

LXXXVIII

Cheio o belga de orgulho na ação brava,
Por que mais prove pela pátria o zelo,
Contra a esquadra, que os muros varejava,
Em dois baixéis arroja um mongibelo.
Crê que é fuga o Menezes, que observava,
E move toda a esquadra sem prevê-lo;
E parece que Deus o impulso inspira,
Com que do oculto incêndio as naus retira.

LXXXIX

Um giro a lua fez na azul esfera,
Enquanto os belgas, de valor já faltos,
Ceder dispunham na contenda fera
Ao furor incessante dos assaltos;
E, quando mais socorro não se espera,
Vendo que os mares se empolavam altos,
Cede o batavo humilde ao luso-hispano
A capital do império americano.»

XC

Falando prosseguia Catarina,
Tendo a assembléia no discurso atenta,
Quando com fúria o bordo ao mar inclina
A nau batida de hórrida tormenta.
Tudo à manobra o capitão destina;
E, vendo que onda horrível se apresenta,
Lança-se o marinheiro à vela em pressa,
Acode o Diogo e Catarina cessa.

(1) Êste meio.  projeto admirável de fazer úteis as conquistas a população das nações que as fazem, pois é certo que, com esta política se formou e cresceu a antiga republica de Roma
(2) Note se que Colon não foí o descobridor do Brasil mas Pndro Alvares Cabral; ao mesmo Colon, então habitante na Madelra, deu os roteiros com que descobriu a América Francisco Sanches, o qual fazem uns Andalus, outros Biseaiho, mas o espanhol Gomara autor coevo, e que militou entre 03 soldados de Colon, atesta que era português. Não é portanto ocasião de notar-se a expressão:dando a Cabral o instinto,etc.
(3) Os Corrêas e Sas. Esta é a rama nobilíssima dos condes de Penaguião, que, passando ao Brasil, deu os primeiros conquistadores àquele Estado, família que existe com a antiga glória na excelentíssima casa de Asseca e nos dois digníssimos ramos da mesma os excelentíssimos senhores Sebastião Correia de Sá e João Correia de Albuquerque, fidalgos que o Brasil deve considerar por seus perpétuos pais e protetores.