CARAMURÚ - CANTO VI

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Caramurú, de Frei José de Santa Rita Durão

Caramurú - Poema Épico do Descobrimento da Bahia
de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, 1781.
Cultura, São Paulo, 1945.

CANTO VI

I

Descansava no seio então Diogo,
Extinta a guerra, de uma paz dourada,
E o pavor do sulfúreo horrível fogo
Trazia a gente bárbara assombrada.
A remotas nações concorrem logo,
Desde a interna região mais apartada,
E, tendo-o do trovão por viva imagem,
Vinha todo o sertão dar-lhe homenagem.

II

Muitos dêles, dos povos subjugados,
Que o efeito viram da terrível chama,
Outros vinham somente convocados
Das heróicas ações, que conta a fama;
Trazem plumas e bálsamos prezados,
E outra rude opulêneia, que o povo ama,
E com os dons da americana Céres
Oferecem-lhe as filhas por mulheres.

III

Era antigo dos bárbaros costume,
Quando algum capitão foi bravo em guerra,
Ou se julgavam que o regia um nume,
Emparentá-lo aos principais da terra;
Qualquer que de nobreza então presume
Do grão-Caramurú que tudo aterra,
Procura, como nobre preminência,
Ter na sua prosápia a descendência.

IV

Tuibaé, dos Tapuias chefe antigo,
Tiapira lhe oferece celebrada;
E com a mão da filha deixa amigo
Uma ilustre aliança confirmada.
Xerenimbó trazia-lhe consigo
A formosa Moema já negada
A muitos principais, por dar-lhe esposo
Digno do trono de seus pais famoso.

V

Muitas outras donzelas brasilianas
A mão do claro Diogo pretendiam,
Ou por prendas, que notam soberanas,
Ou por grandes açoes, que dele ouviam:
A todas ele deu mostras humanas
Sem a fé lhe obrigar que pretendiam;
Mas, por não ofender as brutas gentes;
Trata os pais e os irmãos eomo parentes.

VI

Paraguassú, porém, com fé de esposo
Parecia estimar distintamente,
Mostrando-lhe no afeto carinhoso
A sincera afeicão que nalma sente:
Amava nela o peito valoroso,
E o gênio dócil, com que à fé consente;
Amor que ocasionou, como é costume,
Em algumas inveja e noutras ciúme.

VII

Todas, à bela dama aborreeendo,
Conspiram feras em tirar-lhe a vida;
Mas ela, que o projeto alcança horrendo,
Deixar pretende a pátria aborrecida;
E, na viagem de Europa diseorrendo,
Dseja renaseer à melhor vida:
lmpulso santo, que com justa idéia
Move Diogo a deixar aquela areia.

VIII

Agitado do vário pensamento,
Na margem se entranhou do vasto rio,
Que, invocando o Seráfico portento,
Chama de S. Franeisco o Luso pio.
E, estando o sol no seu maior aumento,
Quanto sítio no ardor busca sombrio,
Numa lapa, que esconde alto mistério, (1)
Foi achar para a calma o refrigério.

IX

Por mil passo a penha milagrosa
Estende em roda o giro dilatado;
Obra da natureza prodigiosa,
Quando o globo terráqueo foi eriado.
Concavidade há ali vasta, espaçosa,
Onde tinha o Criador delineado,
Com capela maior, nave e cruzeiro,
Um templo, como os nossos, verdadeiro.

X

Largo trinta e três passos se estendia
O grão-cruzeiro; a longitude da mole
Por mais de outros oitenta discorria,
Lugar que não pisara humana prole.
O prospeto ext'rior de pedraria,
O interior pavimento é terra mole;
De jaspe se levanta a grã-portada,
Entre torres marmóreas fabricada.

XI

Dentro vêem-se magníficas capelas,
Sustentadas de esplêndidas colunas;
Pelo teto entre nuvens giram estrelas,
E sobre o rio a um lado tem tribunas,
Que, servindo-lhe a um tempo de janelas,
Dão luz a todo o templo; e, quando lhe unas
Quantos prodígios o lugar encerra,
Maravilha maior não cobre a terra.

XII

Capela ali se vê de entalho nobre,
Obrado eom desenho estranho e vário,
Onde, efigiado em mármore, se cobre
Um natural belissimo Calvário;
Vê-se a base da cruz, mas nada sobre,
De jaspe ainda melhor que Egízio, ou Pário,
E ao lado um posto em proporção distinta,
Onde a rnãe e discípulo se pinta.

XIII

Chegado Diogo a ver prodígio tanto,
Pelo estranho espetáculo suspenso,
Penetra-se no peito de horror santo,
Por nao sei quê sagrado oeulto senso.
Depois, rompendo num devoto pranto,
Prostrado em terra, adora o Deus imenso,
Que, quando ser ao mar e à terra dava,
O alicerce à grã-fábrica lançava.

XIV

« Eis aqui preparado (disse) o templo,
Falta n fé, falta o culto necessário;
E quanto era de Deus, feito contemplo
Tudo o que é de salvar meio ordinário.
Desta intenção parece ser exemplo
Este insigne prodígio extraordinário,
Onde parece que no templo oculto
Tem disposto o lugar e espera o culto.

XV

Quis mostrar nesta imagem porventura
Que esta gente brutal não desampara,
E que a qualquer humana criatura
O remédio da ceuz justo prepara;
Que a estes do seu sangue dera a cura,
Que advogada nos deu de empresa tanta,
Preparando o lugar à Virgem Santa.

XVI

Oh queira, grão-Senhor, vossa bondade
Suprir neles e em mim tanta miséria!
Pois de todo salvar tendes vontade,
Que por este sinal mostrais tão séria;
Que, se olhais para a nossa iniqüidade,
Achareis de punir tanta matéria,
Que a antiga culpa pelos seus abrolhos
A ninguém deixa justo aos vossõs olhos. »

XVII

Dali, sulcando o rio caudaloso,
Vai o noto recôncavo buscando,
Por ver se inchada vela o pego undoso
A rumo oriental vai navegando.
Nem temeria o pélago espaçoso
Ir na leve canoa atravessando,
Se o perigo, que imenso considera,
Pelo dano da esposa não temera.

XVIII

Ergue-se sobre o mar alto penedo,
Que uma angra à raiz tem, das naus amparo,
Onde das ramas do entrechado enredo
Causa o verde prospeto um gosto raro.
Ali, morro coberto de arvoredo
A quem passeia o mar serve de faro;
Dão-lhe nome da costa os experientes
Do glorioso apóstolo das gentes.

XIX

Aqui vê Diogo um casco, que encalhara,
Onde n'água se oculta hórrida penha,
Porque, ignorando a costa, se arrojara,
Sem que esperança de socorro tenha.
Vê, como a chusma em terra se salvara,
Que a brutal gente cativar se empenha;
E, presumindo o que era, na canoa
A defender os seus remando voa.

XX

E, temendo que cedam enganados
Ao bárbaro cruel os naufragantes,
Ou que fiquem sem armas cativados
Nas mãos desses penhascos ambulantes,
Faz-lhes sinais e deixa-os avisados,
Fazendo ver as armas rutilantes,
Da areia infinda e do cruel perigo,
E o seu socorro Ihes of'rece amigo.

XXI

E, quando a tiro de canhão se via,
Fez que se ouvisse a formidável tromba,
E ao eco do tambor que lhe batia
Dispara ao tempo mesmo a horrível bomba.
Treme de espanto o bárbaro, que ouvia;
E este pasma, outro foge, aquele tomba;
E, o grão-Caramurú já divisando,
Correm todos humildes ao seu mando.

XXII

Unidos do bom Diogo à comitiva
Socorrem com presteza a vela rota,
Onde a gente das águas semi-viva
Vão leves conduzindo à praia nota.
Salvou-se-lhe a equipagem toda viva;
E, para os preparar à grã-derrota,
Faz que a bárbara gente, dando ajuda,
A aflita multidão piedosa acuda.

XXIII

Paraguassú, porém, com pio aviso
Cuida em prover de roupas e sustento,
E, quanto Ihe é possível, de improviso
Restab'lece-lhe as forças co alimento,
Depois que se saciaram do preciso,
Diogo, que o caso seu recorda atento,
Logo que a turba vê contente e junta,
Donde vêm? aonde vão? quem são? pergunta.

XIV

Um entre outros, que o Chefe parecia,
E sobre os mais da chusma dominava,
Depois de agradecer-lhe a cortesia
Na castelhana língua em que falava,
« Somos (disse) da nobre Andaluzia,
Onde o chão Hispalense o Bétis lava,
Sócios, se ouviste o nome, de Arelhano,
E desde o reino viemos Peruano.

XXV

Se a fama a vós chegou do valoroso
Dómador das provincias peruanas,
E se Pizarro no orbe tão famoso
Não se ignora das gentes lusitanas,
Fomos dele mandados pelo undoso
Grão-rio, que em correntes desce insanas,
Desde a grã-cordilheira, que iminente
Aqui separa o ocaso do oriente.

XXVI

Novas ilhas buscando e novos mares,
Depois de longos dias navegamos;
Já com procelas, já com brandos ares,
Ao conhecido oceano alfim chegamos.
Os perigos, os casos singulares,
Que por mais de mil léguas toleramos,
Não contara, depois que no mar erro,
A ter o peito de aço e a voz de ferro.

XXVII

De sessenta e mais línguas diferentes
Vimos, descendo rio, em curso imenso,
Incógnitas nações, bárbaras gentes,
E um pavo inumerável, vasto e denso.
Montanhas vimos, campos mil patentes,
E um terreno nas margens tão extenso,
Que poderá ele só neste hemisfério
Formar com tanto povo um vasto império.

XXVIII

Mil vezes com canoas belicosas
Combatemos no rio e mil em terra,
Perseguidos de tropas numerosas,
Que ocupavam talvez o vale e a serra.
Nem cessava nas margens perigosas
De mil bravas nações a dura guerra,
Até que, entrando nas ardentes zonas,
Chegamos à região das Amazonas.

XXIX

Discorre com furor pela ribeira
Vasto esquadrão de tropa feminina,
Que, em postura e contenho de guerreira,
Assaltar nossa frota determina.
Sobre o sexo viril, turba grosseira,
O feminino sexo ali domina,
Onde no rio, por que a fama o conte,
Recordamos o antigo Termodonte.

XXX

E já o hispano leão domado houvera
Das Amazonas o terreno infausto,
Se do clima infeliz nos não morrera
De mil fadigas Arelhano exausto.
A gente, pois, que o capitão perdera,
Não podendo esperar sucesso fausto,
Sobre este bergantim, que ali se adorna,
Ao solar pátrio, navegando, torna. »

XXXI

« Não duvideis, responde o herói clemente,
De achar em mim socorro poderoso;
Que achais quem como vós do mar fremente
Aprendeu na desgraça a ser piedoso.
Tendes amiga mão, madeira e gente,
Com que o casco, que vêdes ruinoso,
Reformando-se, torne do céu nosso
À desejada Espanha e Bétis vosso. »

XXXII

Disse; e, ordenando a turba americana,
Assiste ao fabro na naval fadiga;
E, quanto lhe permite a força humana,
Faz que em breve o baixel seu rumo siga.
Nem se demora mais a gente hispana,
Que a convida a monção e o vento obriga:
Soltam a branca vela ao fresco vento,
E vão raspando o líquido elemento.

XXXIII

« Felizes vós, diz Diogo, afortunados,
A quem da cara pátria é concedido
Tornar hoje aos abraços desejados,
Depois de tanto tempo a ter perdido,
Enquanto eu nestes climas apartados
Me vejo de seguir-vos impedido;
Que fiar temo de tão débil lenho
Outra vida que em mais que a própria tenho. »

XXXIV

Dizendo assim, com calma vê lutando
Formosa nau de gálica bandeira,
Que a terra ao parecer vinha buscando,
E a proa mete sobre a própria esteira.
Vem seguindo a canoa, e sinais dando,
Até que aborda a embarcação veleira,
E, de paz dando a mostra conhecida,
Às praias da Bahia a nau convida.

XXXV

A Gupeva entretanto e Taparica
Dava o último abraço, e à forte esposa
A intenção de levá-la significa,
A ver de Europa a região famosa.
Suspensa entre alvoroço e pena fica
Paraguassú contente, mas saudosa:
E, quanto o pranto na sentida fuga
Começava a saudade, amor lho enxuga.

XXXVI

É fama então que a multidão formosa
Das damas, que Diogo pretendiam,
Vendo avançar-se a nau na via undosa,
E que a esperança de o alcançar perdiam
Entre as ondas com ansia furiosa,
Nadando, o esposo pelo mar seguiam,
E nem tanta água que flutua vaga
O ardor que o peito tem, banhando apaga.

XXXVII

Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que às mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.

XXXVIII

« Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem...
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fuzias, raios, coriscos, que o ar consomem.
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco...
Ah que o corisco és tu... raio... penhasco?

XXXIX

Bem puderas, cruel, ter sido esquivo
Quando eu a fé rendia ao teu engano;
Nem me ofenderas a escutar-me altivo,
Que é favor, dado a tempo, um desengano;
Porém, deixando o coração cativo
Com fazer-te a meus rogos sempre humano,
Fugiste-me, traidor, e desta sorte
Paga meu fino amor tão crua morte ?

XL

Tão dura ingratidão menos sentira,
E esse fado cruel doce me fora,
Se a meu despeito triunfar não vira
Essa indigna, essa infame, essa traidora!
Por serva, por escrava, te seguira,
Se não temera de chamar senhora
A vil Paraguassú, que, sem que o creia,
Sobre ser-me inferior, é néscia e feia.

XLI

Enfim, tens coração de ver-me aflita,
Flutuar moribunda entre estas ondas;
Nem o passado amor teu peito incita
A um ai somente com que aos meus respondas!
Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
(Disse, vendo-o fugir), ah não te escondas!
Dispara sobre mim teu cruel raio... »
E indo a dizer o mais, cai num desmaio.

XLII

Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo:
« Ah Diogo cruel! » disse com mágoa,
E, sem mais vista ser. sorveu-se nágua.

XLIII

Choraram da Bahia as ninfas belas,
Que, nadando, a Moema acompanhavam;
E, vendo que sem dor navegam delas,
A branca praia com furor tornavam.
Nem pode o claro herói sem pena vê-las,
Com tantas provas que de amor Ihe davam;
Nem mais lhe lembra o nome de Moema,
Sem que ou amante a chore, ou grato gema.

XLIV

Voava entanto a nau na azul corrente,
Impelida de um zéfiro sereno,
E do brilhante mar o espaço ingente
Um campo parecia igual e ameno.
Encrespava-se a onda docemente,
Qual aura leve, quando move o feno,
E, como o prado ameno ris costuma,
Imitava as boninas com a escuma.

XLV

Du-Plessis, que os franceses governava,
Em uma noite clara à popa estando,
Os casos de Diogo, que escutava,
Admira no naufrágio memorando.
Depois do herói prudente perguntava
Quem achará o Brasil, o como e quando
Ganhara no recôndito hemisfério
Tanto tesouro o lusitano império?

XLVI

«Dois monarcas (responde o lusitano)
Já sabes que no ocaso e no oriente
Novos mundos buscaram pelo oceano,
Depois de haver domado a Líbia ardente;
E que onde não chegou grego, ou romano,
Passeia o forte Hispano e a lusa gente,
Que, instruídos na náutica com arte,
Descobriram do mundo outra grã parte.

XLVII

Do Tejo ao China o Português impera,
De um pólo ao outro o castelhano voa,
E os dois extremos da redonda esfera
Dependem de Sevilha e de Lisboa. (2)
Mas, depois que Colon sinais trouxera
(Colon, de quem no mundo a fama voa)
Deste novo admirável continente,
Discorda com Castela o luso ardente.

XLVIII

Já se dispunha a guerra sanguinosa,
Porém o comum pai aos dois intima
Arbítrio na contenda duvidosa,
Que a parte competente aos reis estima.
Desde Roma Alexandre imperiosa,
Deixando ambos em paz à empresa anima,
E uma linha lançando ao céu profundo,
Por Fernando e João reparte o mundo.

XLIX

Na vasta divisão que ao luso veio,
O precioso Brasil contido fica,
País de gentes e prodigios cheio,
Da América feliz porsão mais rica.
Aqui do vasto oceano no meio
Por horrível tormenta a proa aplica
O ilustre Cabral com fausto acaso,
Sobre graus dezesseis do nosso ocaso.

L

Da nova região, que atento observa,
Admira o clima doce, o campo ameno,
E, entre arvoredo imenso, a fértil erva
Na visosa extensão do áureo terreno.
Coberta a praia está de grã-caterva
De incógnita nação, que com o aceno,
Porque a língua ignorava, à paz convida,
Erguendo lhe o troféu do autor da vida.

LI

Era o tempo em que alegre ressuscita
A verde planta, que murchou no inverno,
E quando a solar meta o tempo excita,
Em que o rei triunfou da morte eterno.
Tão sagrada memória a frota incita
A celebrar ao vencedor do inferno
O sacrificio, dando a fé venera,
A paixão, que em tal tempo sucedera.

LII

Em frondosa ramada o lusitano
Um altar fabricou no prado extenso,
Donde assista ao mistério soberano
Da lusitana esquadra o povo imenso.
Ao rei triunfante do infernal tirano
Odorífero fuma o sacro incenso,
E a vítima do céu, que a paz indica
A gente e nova terra santifica.

LIII

Notar o americano ali contende
Do sacrossanto altar o ato sublime;
E, tanto a simples gente o aceno entende,
Que parece que a ação por santa estime.
Algum, que olhava ao celebrante, emprende
O gesto arremedar, que orando exprime,
E as mãos une e levanta, e talvez solta,
E quando o vê voltar também se volta.

LIV

Como as nossas ações talvez espia
O peloso animal, que o mato hospeda
E quanto vê fazer, como à porfia,
Tudo posto a observar, logo arremeda,
Tal o gentio simples parecia,
Quem nem um pé, nem passo dali arreda,
E, ao santo sacrifício atento e mudo,
O que aos mais viu fazer, fazia-o tudo.

LV

Aqui, depois que às turbas eloqüente
Dita o sacro orador pelo conceito,
E a fé dispensa no ânimo valente
Do nobre povo a propagá-la eleito,
Participa da veia a cristã gente,
E o dom recebem com fiel respeito;
E é fama que Cabral que os convocara,
Montando sobre um alto, assim falara:

LVI

« Gloriosa nação, que a terra vasta
Vais a livrar do paganismo imundo,
A quem êsse orbe antigo já não basta,
Nem a imensa extensão do mar profundo!
Neste oculto país, que o mar afasta,
Tem teu zêlo por eampO um novo mundo;
E quando tanta fé seus têrmos sonde,
Outro mundo acharás, se outro se esconde.

LVII

Oh profundo conselho! Abismo imenso
Do poder e saber do Onipotente!
Que estivesse escondida no orbe extenso
Tanta parte do mundo à sábia gente!
Cinqüenta e cinco séculos sem senso
Das nações deste vasto continente,
E em tanta indagação dos sábios feita,
Não cair-nos na mente nem suspeita!

LVIII

Mas combine-se o dia, o tempo, a hora,
Em que a alta providência aqui nos guia,
Quando à ignorancia Cristo o perdão ora,
Quando morre na cruz, no próprio dia:
Na bandeira do mar triunfadora
Tremulamos as chagas com fé pia,
E nelas quis à grei, que em sombras langue,
Vir neste dia a oferecer seu sangue.

LIX

Goza de tanto bem, terra bendita.
E da cruz do Senhor teu nome seja!
E quanto à luz mais tarde te visita,
Tanto mais abundante em ti se veja!
Terra de Santa Cruz tu sejas dita,
Maduro fruto da Paixão na igreja,
Da fé renovo pelo fruto nobre,
Que o dia nos mostrou, que te descobre. »

LX

Dizendo assim, ajoelha, e cruz entanto
Sublime num outeiro se coloca;
O exército formado ao sinal santo
Se prostra humilde, pondo em terra a boca.
Pasma o gentio, e admira com espanto
A melodia com que céu se invoca,
Hino entoando à cruz pios cantores,
E respondendo as trompas e os tambores.

LXI

Terra, porém depois chamou a gente
Do Brasil, não da Cruz; porque, atraída
Doutro lenho nas tintas excelente,
Se lembre menos dos que o foi da vida.
Assim ama o mortal o bem presente,
Assim o nome esquece, que o convida
Aos interesses da futura glória,
Aos bens atento só da transitória.

LXII

Observa o bom Cabral todo o prospeto
Da imensa costa; e pelo clima puro,
Pelo abordo tranqüilo e mar quieto,
Chama o seio em que entrou Porto Seguro.
E, olhando com saudade o doce objeto,
Do seu destino, se lamenta escuro,
Que pela empresa a que mandado fora
Não permite na armada outra demora.

LXIII

Manda depois ao luso dominante
Um aviso do clima descoberto;
Nem tarda Manuel, então reinante
A enviar um cosmógrafo, que experto
Da escola fôra que o famoso infante (3)
Para a náutica ciência tinha aberto,
E Américo dispõe que o Brasil parta,
De quem deu nome ao continente a carta.

LXIV

E por ter quem aos nossos interprete
Do ignorado idioma a escura sorte,
Alguns em terra condenados mete,
Devidos por delito à crua morte;
A vida como prêmio lhes promete,
Quando com peito se atravessem forte
A esperar no sertão nova viagem,
Aprendendo os rodeios da linguagem.

LXV

Com acenos depois à gente bruta
Os seus, que lhe deixava, recomenda,
E no claro perigo, em que os reputa,
Arma lhe deixa que na guerra ofenda.
Dá-lhe a espécie, que ali bem se comuta,
Em que possam tratar por compra e venda:
Espelhos, cascavéis, anzóis, cutelos,
Campainhas, fuzis, serra, martelos.

LXVI

Nem se demora mais a forte armada;
E, convidando o vento, estende a vela.
Corre a bárbara gente amontoada
Ao embarque das naus da tropa bela;
E, ao que pode entender-se, magoada
Por saudade, que tem de mais não vê-la,
Com acenos e voz enternecida
Faziam a seu modo a despedida.

LXVII

Mais saudosos os tristes desterrados,
Correndo imenso risco a língua aprendem,
Recebendo alimentos comutados
Pelas espécies que ao gentio vendem;
Talvez os têm coa cítara encantados,
Talvez com cascavéis todos suspendem;
Mas o objeto que a vista mais lhe assombra
É ver dentro do espelho a própria sombra:

LXVIII
Extático qualquer notando admira
Dentro ao Cristal a horrível cara;
Pergunta-lhe quem é, como se ouvira,
E, crendo estar no inverso o que enxergara,
De uma parte a outra parte o espelho vira
E, não topando o vulto na luz clara,
Tal há que o vidro quebra, por ver dentro
Se a imagem acha que obsersou no centro.

LXIX

Mas, enquanto estes erram vagabundos,
Américo Vespucci e o forte Coelho
A longa costa e os seios mais profundos
Demarcavam no náutico conselho;
Descobridor também dos novos mundos
Foi Jacques, na marinha experto e velho,
De quem já demarcado em carta ouvimos
Esse ameno recôncavo que vimos.

LXX

Eu depois destes na ocasião presente,
Quando o vasto sertão nos encobria,
Descobri, pondo em fuga a bruta gente,
O recôncavo interno da Bahia:
Notei na vasta terra a turba ingente
Que mais Europa toda não teria,
Se, da grã-cordilheira ao mar baixando,
Desde o Prata ao Pará se for contando.

LXXI

Dá principio na América opulenta
Às províncias do império lusitano
O Grã-Pará, que um mar nos representa,
Êmulo em meio à terra do oceano;
Foi descoberto já (como se intenta),
Por ordem de Pizarro, de Arelhano,
País que a linha equinocial tem dentro,
Onde a tórrida zona estende o centro.

LXXII

Em nove léguas só de comprimento,
Vinte seis de circuito, se espraia
No vasto Maranhão, de água opulento,
Uma ilha bela que se estende à praia;
Regam-lhe quinze rios o áureo assento,
E um breve estreito, que lhe forma a raia,
Pode passar por istmo, que a encadeia
À terra firme por mui breve areia.

LXXIII

O Ceará depois, província vasta,
Sem portos e comércio, jaz inculta.
Gentio imenso, que em seus campos pasta,
Mais fero que outros o estrangeiro insulta,
Com violento curso ao mar se arrasta
De um lago do sertão, de que resulta,
Rio, onde pescam nas profundas minas
As brasílicas pérolas mais finas.

LXXIV

Da fértil Paraíba não ocorre
Que informe a gente vossa, sendo empresa
Do comércio francês, que ali concorre
A lenhos carregar que a Europa presa.
Não mui longe da costa, que ali corre,
Uma ilha vedes de menor grandeza,
Que amena, fértil, rica, e povoada,
É de Itamaracá de nós chamada.

LXXV

A oito graus do equinócio se dilata
Pernambuco, província deliciosa,
A pingue caça, a pesca, a fruta grata,
A madeira entre as outras mais preciosa.
O prospeto, que os olhos arrebata
Na verdura das árvores frondosa,
Faz que o erro se escuse a meu aviso
De crer que fora um dia o paraíso.

LXXVI

Sergipe, então del-rei, logo o terreno
De que viste a beleza e perspectiva;
Nem cuido que outro visses mais ameno,
Nem donde com mais gosto a gente viva.
Clima saudável, céu sempre sereno,
Mitigada na névoa a calma ativa;
Palmas, mangues, mil plantas na espessura,
Não há depois do céu mais formosura.

LXXVII

A quinze graus do sul, na foz extensa
De um vasto rio, por ilhéus cortado,
Outra província de cultura imensa
Tem dos próprios ilhéus nome tomado:
Depois Porto Seguro, a quem compensa
O espaço da província limitado,
Outra de âmbito vasto, que se assoma,
E do Espírito Santo o nome toma.

LXXVIII

Niterói, dos tamoios habitada,
Por largas terras seu domínio estende,
Famosa região pela enseada
Que uma grã-barra dentro em si comprende.
Esta praia dos vossos freqüentada,
Que pomo de discórdia entre nós pende,
Custará, se pressago não me engano,
Muito sangue ao francês e ao lusitano.

LXXIX

S. Vicente e S. Paulo os nomes deram
extremas províncins que ocupamos;
Bem que ao Rio da Prata se estenderam
As que com próprio marco assinalamos,
E, por memória de que nossos eram,
De Marco o nome no lugar deixamos,
Povoação que aos vindouros significa
Onde o termo espanhol e o luso fica.

(1) Lapa.  Esta é a grande igreja da Lapa, em que parece que a natureza preparou à graça um admirável edifício. Veja-se Sebastião da Rocha Pita.

(2) Sevilha.  Então corte de Espanha.

(3) Do famoso infante. A escola náutica e matemática, fundada em Sagres pelo senhor Infante D. Henrique, deu os últinios lumes a Colon, Américo Vespúcio, e outros cosmógrafos estranhos, que em nenhuma outra região da terra podiam achar estudos àquele tempo tão célebres como os de Portugal.