CARAMURÚ - CANTO III

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Caramurú, de Frei José de Santa Rita Durão

Caramurú - Poema Épico do Descobrimento da Bahia
de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, 1781.
Cultura, São Paulo, 1945.

CANTO III

I

Já nos confins extremos do horizonte
Dourava o sol no ocaso rubicundo
Com tíbio raio acima do alto monte,
E as sombras caem sobre o vale fundo;
Ia morrendo a cor no prado e fonte,
E a noite, que voava ao novo mundo,
Nas asas traz com viração suave
O descanso aos mortais no sono grave.

II

Só com Gupeva a dama e com Diogo
Gostosa aos dois de intérprete servia;
E, perguntado sobre o sacro fogo,
A qual fim se inventara, a que servia,
Deu-lhe simples razão Gupeva logo;
« Supre de noite (disse) a luz do dia;
E como Tupá ao mundo a luz acende,
Tanto fazer-se aos hóspedes empreende.

III

Se pecando o mau espirito solevas,
Sucede que talvez cruel se enoje;
E como é pai da noite e autor das trevas,
Tanto aborrece a luz, que, em vendo-a, foge;
Porém, se a luz eterna o peito elevas,
Não há Fúria do Averno que se arroje;
Talvez por lhe excitar tristes idéias
Das chamas que tiveram por cadeia. ?

IV

Admira o pio herói que assim conheça
A nação rude as legiões do Averno; (1)
Nem já duvida que do céu lhe desça
Clara luz de um principio sempiterno.
« Diz-me, hóspede amigo, se professa
Este teu povo, diz, com culto externo
Adorar algum Deus? qual é? onde ande?
Se seja um Deus somente, ou que outros mande?

V

« Um Deus (diz), um Tupá, um ser possante
Quem poderá negar que reja o mundo,
Ou vendo a nuvem fulminar tonante,
Ou vendo enfurecer-se o mar profundo?
Quem enche o céu de tanta luz brilhante?
Quem borda a terra de um matiz fecundo?
E aquela sala azul, vasta, infinita,
Se não está lá Tupá, quem é que a habita?

VI

A chuva, a neve, o vento, a tempestade
Quem a rege? a quem segue? ou quem a move?
Quem nos derrama a bela claridade?
Quem tantas trevas sobre o mundo chove?
E este espírito amante da verdade,
Inimigo do mal, que o bem promove,
Coisa tão grande, como fora obrada,
Se não lhe dera o ser. quem vence o nada?

VII

Quem seja este grande ente, e qual seu nome,
(Feliz quem saber pode) eu cego o ignoro;
E, sem que a empresa de sabê-lo tome,
Sei que é quem tudo faz e humilde o adoro.
Nem duvido que os céus e terra dome,
Quando nas nuvens com terror o exploro,
Deixando o mortal peito em vil desmaio,
Ameaçar no trovão, punir no raio.

VIII

Só pasmo se nos fez como não veio,
Devendo amar o que obra de mão sua,
Ao mundo de anhangás cercado e cheio
A livrar o homem dessa besta crua!
Como é possível que não desse um meio,
Com que a mente ignorante, enferma e nua
Tratar com ele possa, quando é claro
Que o pai não deixa o filho em desamparo?

IX

Sinto bem remorder dentro em meu peito
Lembrança,que me acusa: por mim fica
Se mais bem do que faz, me não tem feito,
Que é néscio quem o ingrato benéfica.
Outro povo talvez mereça eleito
A assistência dos céus de graças rica;
Nem contra Deus se justifica a queixa
Que costume deixar quem o não deixa.

X

Mas, se do trono celestial e eterno
Apesar da malícia nos visita,
Quem sabe se por zelo hoje paterno
A nosso bem mandar-te aqui medita?
Pois creio bem que contra o fogo Averno
Trazes a chama que a do raio imita,
Ou que vens como luz, de etéreo assento,
Por levar-nos contigo ao firmamento.

Xl

Pasmava o lusitano da eloquência
Com tão alto pensar numa alma rude,
Notando como a eterna sapiência
A face a todos mostra da virtude.
E reputava por maior clemência
Que a quem, se a fé conhece, ingrato a ilude,
Negasse Deus a luz, que os outros viam;
Porque, tendo-a maior, mais cegariam.»

XII

« Não deixa nunca os seus o céu piedoso
(Diogo respondeu) que à terra indigna
Manda o seu Unigênito glorioso
Que ofereça, a quem o invoca, a mão benigna;
Mas, se antevisse no homem pernicioso (3)
Uma livre eleição sempre maligna,
Por dar-lhe menos pena em menor falta
Em sombra, como a voz, deixa tão alta.

XIII

Tendes entanto um claro sentimento,
Que espírito imortal se nos concede... ?  (4)
« Sim, diz Gupeva, que o decide atento
Quem tudo quanto sente parte ou mede.
Mas mirando ao seu próprio pensamento,
Vê que a medida sempre intato excede;
E sendo Indivisível desta sorte,
Como pode a razão sofrer a morte?

XIV

Quantas vezes em mim, se ser pudesse,
Um pensamento d'alma eu dividira!
Que todo o mal enfim que o homem padece
Vem da imagem cruel, que dentro gera.
mas a interna impressão tanto mais cresce
Quanto o peito ansiado mais suspira;
E vejo que há em mim mesmo oculto e interno
Entre a mente e a verdade um laço eterno. (5)

XV

Sendo a mente mortal, tornara ao nada,
Ao apagar-se a luz no extremo dia.
F. antes de ser punida ou premiada,
Uma alma justa ou ré pereceria.
sempre em desejos, nunca saciada.
Má sem castigo e sem fortuna pia,
Sem chegar ao seu fim perder a essência...
Como é crível que Deus tem providência? (6)

XVI

Se o fim do inerte bruto se inquirisse,
No contexto das obras respondera
Que fora leito porque nos servisse
E que eterno destino não tivera, (7)
Onde era bem que a morte destruísse
Quem para imortal fim nunca nascera;
Porque lhe dera, a tê-lo, o céu divino
Outro corpo, outra forma, outro destino.

XVII

Que o bruto elege, pensa, que discorre
Do que o vemos obrar fica evidente;
mas cada espécie a um curto fim concorre,
Sem órgão e aptidão com que outro intente.
O homem tudo quer, por tudo corre,
Tem órgãos para tudo e tudo sente;
Infinito em pensar e no que vejo
Maior que no pensar no seu desejo.

XVIII

Tudo domina só. tudo governa,
Sem que a outro animal servir costume;
Toda outra espécie à sua, é subalterna,
E, se imortal nascera, fora um nome; (8)
Arbítrio universal, razão eterna,
Capaz de receber o imenso lume,
E fora mais, se a morte o dissipara,
Que se céu, terra e inferno aniquilara. ?

XIX

Pasmado Diogo do que atento escuta,
Não crê que a singular filosofia
 possa ser da invenção da gente bruta;
Mas a intérprete bela lhe advertia
que a antiga tradição o nunca interrupta
Em cantigas, que o povo repetia,
Desde a idade infantil todos compreendem,
E que dos pais e mães cantando o aprendem.

XX

Que eram pedaços das canções, que entoam (9)
As que ouvia a Gupeva (e talvez tudo)
Que poético estilo doces soam
Feitas por sábios de sublime estudo,
Que alguns entre eles com tal estro voam,
Que envolvendo-se o harmônico no agudo
Parece que lhe inflama a fantasia
Algum nume, se o há, da poesia.

XXI

Tendo Paraguassú dito discreta,
Prossegue então Gupeva os seus assuntos
Que, se as almas morressem, que indiscreta
A memória seria dos defuntos ?
A que servira a lei que nos decreta (10)
Que no sepulcro se lhe ponham juntos
Comidas, arcos, frechas? quem resista
A quem depois da morte não subsiste?

XXII

O inimigo anhanhá, logo que deixa
A nossa alma esta carne, em fúria a invade,
E do mal, que cá fez, cruel se queixa,
Até que em sombras entre ml claridade;
O rito do sepulcro expresso deixa,
Que, enterrando-se em pé, na eternidade
O fim buscamos, a que Deus nos cria
E que antes de o alcançar se segue a via.

XXIII

Deste princípio nasce que com prantos
Noite e dia se chora o seu decesso.
Louvam-se nos congressos como santos,
E põe-se no sepulcro um marco expresso;
Tantas memórias, pois, ofícios tantos,
A que fim, se a alma acaba, eu não conheço.
A expiação e obséquio era frustrado,
Se ela não vive ou purga algum pecado.

XXIV

Costumes são da oculta antigüidade
Que o grão-Tamandaré desde alta origem (11)
As gentes ensinou, com que à piedade
Todas no mundo as almas se dirigem;
E quando algum conteste esta verdade,
Provam-na os anhangás que nos afligem,
Pedindo aos nigromantes que a alma vendam
No que uma alma imortal nos recomendam.

XXV

Que é desde nossos pais fama constante
Que aonde o sol se pule fama montanhas(12)
Há um fundo lugar de que e habitante
O pérfido anhangá com cruéis sanhas:
Ali de enxofre a escuridão fumante
Com portas encerrou Tupá tamanhas,
Que as não pode forçar nem todo o inferno:
A morte é a chave, e o cadeado é eterno.

XXVI

Dentro nada se vê na sombra escura;
Mas no vislumbre fúnebre e tremendo
Distingue-se com vista mal segura
Um antro vasto, tenebroso e horrendo;
Ordem nenhuma tem; tudo conjura
Ao sempiterno horror, que ali compreendo:
Mutuamente mordendo-se de envolta,
Um noutro agarra, se o primeiro o solta.

XXVII

Se viste onda sobre onda procelosa,
Quando bate escumando a areia funda,
Como esta aquela engola, e mais furiosa
Montanha d'água vem, que ambas afunda,
Tal na caverna lôbrega horrorosa
Onda e onda de fogo os maus imunda:
Este sobe; Este desce; e um cataclismo
Alaga as nuvens e descobre o abismo.

XXVIII

Aqui o fero anhangá caiu (se conta),
Quando do grão-Tupá rompia o jugo;
E vem dos astros, que soberbo monta,
A ser em pena vil do homem verdugo.
Ali com mão cruel, com fúria pronta
Pune da nossa espécie o vil refugo;
E, em vez de mãos, as miserandas gentes
Enrosca em laços de cruéis serpentes.

XXIX

Ali, do grão-tupá por lei severa,
No incêndio está, que o tempo não apaga,
Quem torpe incesto faz, quem adultera,
Quem 6 réu da lascívia infame e vaga.
Cada um, como a culpa cometera,
Tanto e no próprio membro o crime paga:
Fere-se a quem feriu; mas o homicida,
Só porque morra mais, não perde a vida.

XXX

Sentada em meio da morada horrenda,
Branca de cãs e imóvel na manobra,
Imensa sombra faz que a cauda prenda
Dentro na boca horrível uma cobra:
Com rouca(a voz e intimação tremenda
Ao tempo preso na vipérea dobra
Diz, retumbando eco a cavidade:
Oh vida! oh tempo! oh morte! oh eternidade!

XXXI

Além da grã-montanha, em que se oculta (13)
O cárcere das sombras horroroso,
De mil delicias num terreno exulta
Quem vive justo ou quem morreu piedoso.
Não se acha imagem nesta terra inculta
 ()Quem seja sombra do país ditoso.
O tempo ali da paz foi levantado,
Sempre aberto ao prazer e à dor fechado.

XXII

Há do ameno jardim na vasta entrada
Uma grã-porta de safiras belas,
Onde da etérea luz reverberada
Se pinta em vasto fundo um mar de estrelas;
Toda ela em torno, em torno decorada
De flóridas belíssimas capelas.
Junto voragem há de um precipício,
Que sorve a quem se encosta infecto em vicio.

XXXIII

Vêem-se dentro campinas deleitosas,
Geladas fontes, árvores copadas,
Outeiros de cristal, campos de rosas,
Mil frutígeras plantas delicadas;
Coberto o chão das frutas mais mimosas,
Com mil formosas cores matizadas;
E, à maneira, entre as flores, de serpentes,
Vão volteando as líquidas correntes.

XXXIV

Latadas de martírios há sombrias,
Que com a rama e flor formam passeios,
Onde passam sem calma os claros dias
Gozando sem temor de mil recreios.
Chuvas ali não há, nem brumas frias,
Nem das procelas hórridas receios;
Nem há na primavera e verdes maios
Quem receie o trovão, nem tema o raios.

XXXV

Entre o sussurro ali das fontezinhas,
harmônica se escuta a voz sonora,
 Com que mil inocentes avezinhas
Entoam a alvorada à fresca aurora;
Muitas  com vôos vão ao céu vizinhas,
Outra segue o consorte, a quem namora,
E mil doces requebros gorjeando,
De raminho em raminho vai saltando.

XXXVI

Uma ave entre outras há que se discorre, (14)
Ou fama certa seja ou voz fingida,
Que do jardim a nós, de nós a corre,
Como fiel correio da outra vida;
Dizem que voa, quando algum lá morre,
E exprime no seu canto enternecida
O que alma passa nas eternidades,
E que nos leva e traz doces saudades.

XXXVII

Neste ameno jardim virem contentes
As almas que no mundo valorosas
A santa lei guardaram diligentes,
Obrando ações na vida gloriosas;
Os que foram na guerra mais valentes,
E a pátria com ações guardam honrosas
E os que em bélico horror com peito forte
Temem mais uma afronta do que a morte.

XXXVIII

Aqui do grão-Tupa no amado seio
Conversam, dançam, jogam sem fastio;
Uns dos males passados sem receio
Cantam da crua guerra o caso ímpio,
Outros da própria morte o golpe feio
Recordam sem pavor, contam com brio,
Que o recordar um mal que ó já passado
Dá depois mais prazer que então cuidado.

XXXIX

Ali dos pais as almas venturosas
Unidas sempre estão ao filho amado;
E o prêmio das fadigas laboriosas
Cozam no seio um doutro sem cuidado.
A mãe abraça as filhas amorosas,
Como o esposo a consorte em puro agrado;
Sem guerra, sem contenda, sem porfia
Passam tranqüila a noite e alegre o dia.

XL

Mas o que é mais suave, o que é mais doce,
É gozar-se entre tanta amenidade
De todo o bom desejo a inteira posse,
Nem ter de coisa vá necessidade.
Oh quem do tanto bem possessor fosse!
Grato país! amável liberdade!
Onde por graça de Tupá infinita
Ninguém padece, teme ou necessita!

XLI

Dizendo assim, Gupeva enterneceu-se,
Sentindo a força que o mortal levanta
A bem-aventurança. Comoveu-se
Também Diogo, vendo que em luz tanta
Tão pouco de Deus sabe; a todos deu-se
O eterno lume, cópia da lei santa;
Mas bem que de esplendor inunde um pego,
Quem é indigno de Deus fica mais cego.

XLII

«Que valem (disse ao bárbaro ignorante)
Jardins, flores, delicias e prazeres,
Faltando o objeto enfim mais importante,
Que é a face de Tupá? pois de a não veres,
Todo outro bem, que gozes por brilhante,
Por belo, por maior que o conceberes,
Para a nossa cobiça mal saciada
É vil, é vão, é pouco, é fumo, é nada.

XLIII

Finge que possa o homem gozar junto
Destes bens cá da terra um vasto rio,
Quanto Deus criar pode, tudo e munto;
Quem dele não gozar fica vazio;
Se o mundo a uma alma basta eu não pergunto:
Que ela goze infinitos sempre eu fio
Que. qual hidropisia verdadeira,
Quantos mais possuir, tanto mais queira.

XLIV

Toda essa glória, que me tens pintado,
Sem mais que um bem do mundo circunscrito,
Não é, Gupeva meu, mais que um bocado
Para quem só se farta do infinito;
E quando tudo o mais se haja logrado,
Se é um bem transitório, se é finito,
Em breve hás de sentir, e sem remédio,
Do futuro ânsia e do parado tédio.

XLV

Deus, caro amigo meu é Deus somente
Quem pode saciar nossa vontade;
Chegar a parte aonde o ver contente,
E vê-lo ali por toda a eternidade;
Todo o bem nele esta sumo e eminente,
Honra, gloria, grandeza, majestade,
Esta é, se discorreres em bom siso,
A idéia que hás de ter de um Paraíso.

XLVI

Porém narra-me entanto o que se pensa
Entre vós princípios deste mundo:
Quando? como? por quem na idéia imensa
Se tomou a medida ao céu profundo?
Qual foi o homem primeiro e de qual crença?
Ou se noticias tens do Adão segundo?
De qual origem sois ou de qual gente?
Ou quem veio a povoar tal continente? »

XLVII

« Memória nunca ouvi (Gupeva disse) (15)
Onde o homem nascesse; mas compreendo
Que houve princípio enfim que o produzisse;
Que sem fim e princípio eu nada entendo;
Como o criou não sei; e, bem que o visse,
Não pudera entende-lo, conhecendo
Que entre o nada e o ser há tal distância,
que a ti te creio igual nesta ignorância.

XLVIII

O primeiro homem na geral lembrança,
A tradição dos velhos mais antigos,
Antes do grão-dilúvio não alcança;
Sabemos 80 que uns homens inimigos,
Do forte braço na falaz confiança,
Encheram todo o mundo de perigos
E deram causa que o dilúvio extenso
Num pego sepultasse a terra imenso.

XLIX

Do renovado mundo o patriarca
Desde o alto monte, onde escapou, descendo,
Depois que a grã-canoa e imensa barca,
Em que ao alto subiu, foi fundo tendo,
Na prole imensa dominou monarca,
E as várias tribos dividiu havendo
Por continentes e ilhas no mar fundo,
De toda a gente é pai que habita o mundo.

L

Predisse o justo velho o grão-castigo,
E, os homens exortando à penitência,
Nem à vista do próximo perigo
Chama-los pode à justa obediência.
Cansado então Tupá da paz amigo
Do cruel latrocínio e da violência,
Quis por vingar-se o Padre onipotente
Com águas apagar a chama ardente.

LI

Faz que se abram do céu, que água encerra,
A catadupas, como imensos rios,
E, que a face inundando-se da terra,
Se afoguem bons e maus, justos e ímpios.
Os elementos em desfeita guerra
Confundem-se em medonhos desafios;
Cai um mar desde o céu, e na mesma hora
Manda a terra do centro outro mar fora.

LII

Já rota a margem, que nas brancas praias
Às ondas posto tinha o grão-sob'rano,
Passam as águas das extremas raias
Onde se ajunta com o monte o plano;
O peixe nadador, nas altas faias,
No ninho esta do alígero tucano;
E em seios as baleias ver puderas,
Covis dos tigres e antros de panteras.

LIII

Iam entanto os homens miserandos
De um monte a outro por fugir das águas,
E seu destino algum bandos e bandos
Correndo gritam com piedosas; magoas,
E os cegos deprecam, que os escutem brandos;
Mas a ira de Tupá com justas frágoas
Fulminando centelhas e coriscos,
Faz maiores os danos do que os riscos.

LIV

Via-se em longa tábua mal segura
Nadar sobre água a mãe desventurada,
E, tendo ao colo apensa a criatura,
Ora é n'agua abatida, ora elevada.
Quem desde o alto das casas se pendura,
Quem fabrica de lentos a jangada,
Qual da fome mortal horror concebe,
E crê que é menos mal, se a morte bebe.

LV

Tamandaré, porém, de Tupá amigo,
Enquanto grã-procela horrível soa,
Salva o naufrago mundo pelo abrigo
Que aos filhos procurou na grã-canoa;
E a barca, por memória do castigo,
Elevada deixou sobre a coroa
Das altas serras, que, na fama claras,
Têm nome semelhante ao das araras. (16)

LVI

Daqui por várias terras espalhados
Os homens foram que seus netos cremos;
Uns que a fronte de nós deixou queimados,
O claro sol que nasce em seus extremos, (17)
Outros, que habitam climas apartados,
Dessa cor branca que em teu rosto vemos,
Divididos do mar, por onde as proas
Endireitam a nós vossas canoas.

LVII

Se sois de nós, se nós das vossas gentes,
São coisas que nós todos ignoramos,
Pois de paterno chão sempre contentes,
Doutras terras e tempos não cuidamos;
Mas vós, que os mares passeais ingentes,
Podereis inferir se os que aqui estamos,
Depois que de um pai só todos nascemos,
Com alguns entre vós nos parecemos,

LVIII

Que. se em vós houve ou há quem assim trate, (18)
Quem se governe assim, quem edifique,
Ou quem com armas, como nós combate,
Quem todo à caça, como nós se aplique;
Sé há quem devore os homens quando os mate,
A quem o feroz vulto imberbe fique,
Desde Tamandaré, que é pai das gentes,
Podemos crer que são nossos parentes.

LIX

Conserva-se num povo o antigo rito,
Se o não altera o rito do estrangeiro,
E sempre algum vestígio fica escrito
Por tradição do século primeiro
Vós sabereis, se a história tenha dito,
Que houve tempo em que o mundo quase inteiro,
Sem sabermos uns dos outros se habitasse,
E, como nós erramos, tudo errasse.

LX

Se os mares nunca dantes navegados
Discorrestes por climas diferentes,
Sabereis doutros homens separados,
Descobertos talvez das vossas gentes,
Que por estreitos, pode ser, gelados,
Transitaram nos nossos continentes;
Vos direis se homem há na roxa aurora
Nua e pintados, como nós agora.

LXI

E por que saibas mais nosso costume,
Onde julgues melhor da antiga origem,
Dir-te-ei como, seguindo o impresso lume,
As prudentes nações cá se dirigem;
Nem do vício de muitas se presume
Contra aquelas que sabias se corrigem;
Que também entre vós, creio, se escuta,
Quem tem boas leis, tem má conduta.

LXII

De Tupá, que o trovão com fogo manda,
Trememos, como vês, espavoridos;
Mas, quando vemos que a procela abranda,
Ficam os homens de Tupá esquecidos:
E bem suspeito que nessoutra banda
Suceda assim, se o horror vem dos sentidos;
E que entre vós também gente se veja
Que não temem Tupá e não troveja.

LXIII

Quem o blasfeme, afronte, ou quem o chame
A ser-lhe testemunha quando mente,
Nunca se ouve entre nós com fúria infame (19)
E só de o imaginar se assombra a gente.
Raro quem o adore ou quem o ame;
Mas mais raro será quem, insolente,
Tenha do sumo Ser tão cega incúria
Que trate o nome seu com tanta injúria.
 
 

LXIV

De externo culto a Deus há pouco indicio;
Se não é no que estimas bruto engano
De fazermos cruento sacrifício,
Não do sangue brutal, porém do humano.(20)
Vejo à luz da razão que é feio vício
Que ao instinto repugna por tirano;
Mas matar quem nos mais o crime atiça
Não é vitima digna da justiça?

LXV

Justiça do céu reconhecemos
Contra quem delinqüente a profanasse;
Pondo suplícios contra os maus extremos,
E em justo sacrifício a pena dá-se.
O malfeitor, o réu, quando o prendemos,
Com sacro rito a cerimônia faz-se;
Que quem no sangue ímpio a Deus vindica,
Este o aplaca somente e sacrifica. (21)

LXVI

A forma do governo por abuso
Anárquico entre nós sem lei se oferece;
Mas nos que fazem da razão bom uso
Justa legislação reinar parece.
Nem nos tomes por povo tão confuso,
Que um público poder não conhecesse:
Ha senado entre nós, sábio e prudente, (22)
A quem o nobre cede e a humilde gente

LXVII

Vagamos sempre e nunca um firme assento
Nos deixam ter da caça os exercícios;
Buscamos nela os próprios alimentos,
E habitamos onde a há ou dela indícios.
E estes são de ordinário os fundamentos
De ocupar-nos em bélicos ofícios.
Verás as gentes em contínuo choque
Sobre a quem o terreno ou prata toque.

LXVIII

Em várias castas e nações diversas
Dividido o sertão vagar costuma;
E, bem que vagabundas e dispersas,
Confederam-se as tabas de cada uma. (23)
Em guerra e paz e em sedições perversas
Ao pátrio nome não se nega alguma;
E, se o senado o quer, por justos modos
Põem-se todos em paz e armam-se todos.

LXIX

São nos senados membros e cabeças
Os velhos sábios capitães valentes,
Os que têm socorrido em grandes pressas
Com conselhos à pátria mais prudentes:
Destes as ordens dimanando expressas,
Um só se não verá nas nossas gentes
Que rompa, não cedendo a potestade,
Este laço da humana sociedade.

LXX

Destes uns da suprema divindade
Ministros são, que nos festivos dias, (24)
Fazendo-se qualquer solenidade,
O povo exortam com lembranças pias:
Honram cantando a eterna majestade,
Com sons, que para nós são melodias;
Coisas, que se Anhanhá corrompeu tanto,
Vê-se que nascem de princípio santo.

LXXI

Estes chefes do culto venerando
Mantém-nos a oblação do povo crente;
São mestres santos e, por nos orando,
O lume da razão mostra evidente
Que, em tão sublime ofício ministrando,
Têm direito a que o público os sustente;
Pois neles é mais justo que a lei valha
De comer cada um donde trabalha.

LXXII

Punimos o homicídio; quem mutila,
Quem bate ou fere não evite a pena:
A sentença ele a dá. Deve subi-la, (25)
Qual foi a culpa, com justiça plena:
Quem matou morrer deve: assim se estila,
Por lei sagrada, que a eqüidade ordena.
Quem cortou pé ou mão, braço ou cabeça,
No pé, no braço e mão tanto padeça.

LXXIII

A fé do matrimônio bem declara (26)
Que o vago amor a lei ofenderia;
Se se pudera usar sem  que um casara,
Quem é que neste mundo casaria?
Deve morrer quem quer que adulterara;
Sem isso quem seu pai conheceria?
E o que extermina a pátria potestade
Quem não vê que repugna a humanidade?

LXXIV

Quem pai ou mãe conhece com incesto,
Ou quem corrompe a irmã, padece a morte:
Nos ofícios dos pais é manifesto (27)
Que confusão nascera desta sorte.
Ser a filha mulher não fora honesto,
Dominando em seu pai como consorte:
Se o irmão no matrimonio à irmã seguira,
Sempre o gênero humano mal se unira.

LXXV

Deve a humana geral sociedade,
Para gozar da paz com doce laço,
Vincular dos mortais a variedade (28)
De um consórcio feliz no caro abraço.
Deu-nos o céu por órgão da amizade,
Deu-nos como outra mão, como outro braço,
A consorte, em que o amor com fé excite,
Não por pasto brutal de um apetite.

LXVIII

Em várias castas e nações diversas
Dividido o sertão vagar costuma
E, bem que vagabundas e dispersas,
Confederam-se as tabas de cada uma. (23)
Em guerra e paz e em sedições perversas
Ao pátrio nome não se nega alguma;
E, se o senado o quer, por justos modos
Põem-se todos em paz e armam-se todos.

LXIX

São nos senados membros e cabeças
Os velhos sábios, capitães valentes
Os que têm socorrido em grandes pressas
Com conselhos à pátria mais prudentes:
Destes as ordens dimanando expressas
Um só se não verá nas nossas gentes
Que rompa, não cedendo a potestade,
Este laço da humana sociedade.

LXX

Destes uns da suprema divindade
Ministros são, que nos festivos dias, (24)
Fazendo-se qualquer solenidade,
O povo exortam com lembranças pias:
Honram cantando a eterna majestade;
com sons, que para nós são melodias,
Coisas, que se Anhanhá corrompeu tanto,
Vê-se que nascem de principio santo.

LXXI

Estes chefes do culto venerando
Mantém-nos a oblação do povo crente;
São mestres santos, e, por mós orando,
O lume da razão mostra evidente
Que. em tão sublime oficio ministrando,
Têm direito a que o público os sustente;
Pois neles é mais justo que a lei valha
De comer cada um donde trabalha.

LXXII

Punimos o homicídio; quem mutila,
Quem bate ou fere não evite a pena:
A sentença ele a dá. Deve subi-la, (25)
Qual foi a culpa, com justiça plena:
Quem matou morrer deve: assim se estila,
Por lei sagrada, que a eqüidade ordena.
Quem cortou pé ou mão, braço ou cabeça,
No pé, no braço e mão tanto padeça.

LXXIII

A fé do matrimônio bem declara (26)
Que o vago amor a lei ofenderia;
Se se pudera usar sem  que um casara,
Quem é que neste mundo casaria?
Deve morrer quem quer que adulterara;
Sem isso quem seu pai conheceria?
E o que extermina a pátria potestade
Quem não vê que repugna a humanidade?

LXXIV

Quem pai ou mãe conhece com incesto,
Ou quem corrompe a irmã, padece a morte:
Nos ofícios dos pais é manifesto (27)
Que confusão nascera desta sorte.
Ser a filha mulher não fora honestos,
Dominado em seu pai como consorte:
Se o irmão no matrimonio à irmã seguira,
Sempre o gênero humano mal se unira.

LXXV

Deve a humana geral sociedade,
Para gozar da paz com doce laço,
Vincular dos mortais a variedade (28)
De um consórcio feliz no caro abraço
Deu-nos o céu por órgão da amizade,
Deu-nos como outra mão, como outro braço,
A consorte, em que o amor com fé excite,
Não por pasto brutal de um apetite.

LXXVI

E houvera sem prisão que tão suave,
Dominando entre os homens desde o Averno
A discórdia cruel e a inveja grave,
A conter-se o himeneu no amor fraterno.
Nasce do amor a paz: o amor e a chave,
É o doce grilhão, vínculo eterno,
Que, se o vil interesse algum desune,
Os peitos abre e os corações nos une.

LXXVII

Movidos deste fim por são costume,
julgaram nossos pais na antiga idade
Que se ofende no incesto o impresso lume,
Como contrário à paz da sociedade.
E, se do céu preside o santo Nume
Ao sossego da triste humanidade,
Quem duvida que estime pouco  honesto
Conhecer-se os irmãos com feio incesto?

LXXVIII

Entre nós, quem elege a esposa amada
Pede ao pai ou parente; e, sem pedi-la,
Não se julgara a fêmea desposada,
Por deixar a família assim tranqüila;
Que, se órfã fosse acaso abandonada,
Só pertence ao vizinho o permiti-la
E, convindo ou seu pai ou seu parente,
É sem mais matrimônio de presente.

LXXIX

Furto entre nós não há: de que há de havê-lo?
O que há, come-se logo; e, sem que o enfade,
Um tira doutro o que acha, por comê-lo;
E anda ao pé da pobreza a caridade.
A calúnia, a traição, o amargo zelo
Tem por pena a comum inimizade:
Nem há, se o entendo bem, maior castigo
Que o mundo todo ter por inimigo.

LXXX

Outra lei depois desta é fama antiga
Que observada já foi das nossas gentes;
Mas ignoramos hoje a que ela obriga,
Porque os nossos maiores, pouco crentes,
Achando-a de seus vícios inimiga,
Recusaram guardá-la, mal contentes.
Alas da memória o tempo não acaba,
Que pregara Sumé, santo emboaba. (29)

LXXXI

Homem foi, de semblante reverendo,
Branco de cor, e, como tu, barbado,
Que desde onde o sol nos vem nascendo
De um filho de Tupá vinha mandado.
A pé sem afundar (caso estupendo!)
Por esse vasto mar tinha chegado,
E na santa doutrina, que ensinava,
Ao caminho dos céus todos chamava.

LXXXII

Com grande mágoa ignora-se o que disse;
Mas não se ignora que da santa boca
Um conselho utilíssimo se ouvisse
De plantar e moer a mandioca.
Que havia de tornar também predisse
Desde o céu a que amigo nos convoca,
E na terra ou no céu, que ele estivera,
Eu o iria a encontrar, se ele não viera.

LXXXIII

Contam que, quando aos nossos cá pregava,
Poder mostrara tal nos elementos,
Que às ondas punha lei, se o mar se irava,
E de um aceno só domava os ventos;
Os matos se lhe abriam, quando entrava,
E os tigres feros, a seus pés atentos,
Pareciam ouvir como a outra gente,
Festejando-o coa cauda brandamente.

LXXXIV

As águas donde quer, em rio, ou lago,
Se as chegava a tocar com pé ligeiro,
Náo pareciam do elemento vago,
Mas pedra dura, ou sólido terreiro.
Só com chamar seu nome, cessa o estrago,
Se o furacão com hórrido chuveiro,
Quando na nuvem, negra se levanta,
Ou derriba a cabana, ou quebra a planta.

LXXXV

Porém, negando às pregações o ouvido,
Vinha os caboclo do sertão mais bruto
Contra o justo Sumé de Deus querido
A matá-lo « comê-lo resoluto.
Pudera ele fazer, sendo ofendido,
Que eles colhessem da cegueira o fruto;
Mas pede só prostrado a Deus que o croe,
E que a ignorância aos míseros perdoe.

LXXXVI

Os feros, pois, na fúria contumazes
Tomam as frechas, e bramindo atiram;
Mas (quanto pelos teus, Tupá, não fazes!)
Contra quem atirou pelo ar se viram.
E nem assim se mostram mais capazes
Dos anúncios de paz que entanto ouviram.
Deixa-os Sumé, e um rio aborda cheio,
E só com pôr-lhe um pé partiu-o ao meio.

LXXXVII

Contam (e a vista faz que a gente o creia)
Que, onde as correntes d água arrebatadas
Se vão bordando com a branca areia,
Ficaram de seus pés quatro pegadas:
Vêem-se claras, patentes, sem que a veia
As tenha d'água no seu ser mudadas,
E enxerga se mui bem sobre os penedos
Toda a forma do pé com planta e dedos. ?

LXXXVIII

Assim Gupeva concluiu, dizendo,
Nem mais tempo ao discurso haver podia,
Por aviso, que os campos vem batendo
Turba inimiga em vasta companhia:
« As armas, grita, às armas! ? e o eco horrendo,
Retumbando nas árvores sombrias,
Fez que as mães, escutando os murmurinhos,
Apertassem no peito os seus filhinhos.

LXXXIX

« Não te espantes, diz Diogo; não alteres
A paz dentro as cabanas belicosas;
Enquanto novas certas não souberes,
Basta pôr guardas nos confins forçosas.
De noite não te empenhes, se temeres
Que te invadam com tropas numerosas,
Põe-te na defensiva, e bem que treme
Quem te busca de noite e quem te teme

XC

Quanto mais que o trovão nas mãos preparo
Contra teus inimigos neste afogo;
Nem duvides que logo que o disparo,
Tudo em chamas não vá, tudo arda em fogo. ?
Disse, e ao favor saiu de um luar claro,
Disse, e ao favor saiu de um luar claro,
E enquanto atira todo o bosque atroa
Pelo horror da buzina com que soa.

XCI

Qual dos monos talvez tropa nojosa
Saiu do int rior mato em negro bando;
E, se a frecha um derriba, vai medrosa
Em fuga pelas árvores saltando,
Tal, ouvindo a buzina pavorosa,
E o arcabuz com trovão relampagueando
Correm, caem, despenham-se na e estima
De que o céu todo lhes caía em cima.

(1) Legiões do Averno  É constante o conhecimento que têm os bárbaros da América dos espíritos infernais. De quem o apreenderam? Quem lhes inspirou estes sentimentos? Respondam os materialistas e libertinos Como era possível que concordassem com as outras gentes estas nações ferinas e sem algum comércio? Como era factível que conservassem depois de tantos séculos, tão clara noção de espíritos separados?

(2) Um Deus  É injúria que se faz por alguns autores aos brasilienses, supondo-os sem conhecimento de Deus, lei e rei. Eles têm a voz Tupã com a especial significação de um ente supremo, como sabemos dos missionários e dos peritos dos seus idiomas.

(3) Mas, se antevisse Não admitimos em Deus ciência condicionada e exploratória; mas é certo que com determinado conhecimento conhece nos objetos as suas condições, e que na execução ao menos priva da sua graça alguns que antevê que abusaram livremente dela.

(4) Espírito imortal.  Os bárbaros americanos têm distinta idéia da imortalidade da alma, do paraíso, do inferno, da lei, etc. Veja-se Martinière, Osório de rebus Emmanue1is, e outros. Grande argumento contra os libertinos e materialistas. Pois quem lhes transfundiu estes conhecimentos, senão a antiga tradição dos tempos diluvianos, e a harmonia que estas tradições têm com a natureza!

(5) Laço eterno  A verdade e indelével impressão que dela sentimos no espírito é um grande argumento da imortalidade, a que recorreram maiormente Platão, Santo Agostinho, etc. Convence dos costumes e ritos dos brasilienses a antiga persuasão que têm da imortalidade da alma.

(6) Providência.  O argumento da pena e castigo que se deve aos injustos, e do prêmio que se concede aos bons é prova inegável da imortalidade da alma, suposta a Divina Providência, porque vemos morrer sem prêmio a piedade de muitos e sem castigo a injustiça.

(7) Destino  É esta a invencível e universal prova de ser mortal a alma do bruto porque, por experiência, e pela sua organização, vemos que têm um fim limitado, temporal e ordenado a servir o homem na vida mortal. Tudo ao contrário do homen mesmo.

(8) E se imortal nascera. A imortalidade por natureza e essência é privilégio da divindade. Adão nasceu imortal por graça.

(9) Canções.  Sei que Martirnière afirma não ter ouvido nas canções brasilienses indícios do religião. Mas suponho bem que não veria todas; e creio que seja impossível terem eles conservado as tradições que o mesmo autor confessa. sem este, ou igual meio.

(10) Que nos decreta. - Todos estes ritos, que subsistem nos americanos, convencem que as almas sobrevivem aos corpos, e que são, portanto, imortais.

(11) Tamandaré.  Noé, segundo as noções do dilúvio, que depois veremos.

(12) Montanha.  Crêem os brasilienses que no meio das, montanhas que dividem o Brasil do Peru há vales profundíssimos, aonde são punidos os ímpios. Idéia expressa do inferno, em que concordam com todas as gentes, e dão claro sinal nesta persuasão de saberem-no por tradição original dos
primeiros que povoaram a América. Não pode haver argumento mais convincente para encher de confusão os deístas, libertinos e materialistas. Uma tradição tão antiga, tão firme nestes bárbaros, é ela uma invenção porventura de alguns homens supersticiosos e impostores das nações da Ásia, ou da nossa Europa.

(18) Além da grã-montanha.  0a bárbaros crêem que haja lugar destinado para prêmio dos bons, e colocam-no além das montanhas do Peru.

(14) Uma ave.  Persuadem se os brasilienses haver uma ave, que chamam Colibri, a qual leva e traz noticia do outro mundo. Argumento inegável da sua crença sobre a imortalidade da alma.

(15) Memória.  Não têm os indígenas do Brasil idéia da criação, mas só de Noé e do dilúvio, e mui confusa dos homens antediluvianos. Todo argumento para convencer os incrédulos da história sagrada e do dilúvio universal nela referido. Veja-se Sebastião da Rocha Pita e Francisco de Brito Freire, na História Brasílica.

(16) Araras. Entende o poeta os montes Ararat, onde ficou a arca.

(17) O claro sol.  Entende os africanos, que ficam ao oriente da América.

(18) Que, se em vós houve  A maior parte destes sinais se acham nos tártaros da Coréia, e em outros selvagens fronteiros à Califórnia. Nem duvidamos que estes, gelando-se ali os mares, passassem ao continente da América pela parte mais setentrional.

(19) Nunca se ouve  O juramento, blasfêmia e imprecação, são vícios ignorados entre os nossos selvagens, e raríssimos entre os tártaros.

(20) Do humano.  Não há indício de, sacrifico nos indícios brasilienses; mas, sendo as vítima s humanas praticadas no México, Peru e em outras nações da América, persuadimo-nos que a solenidade dos homicídios nos habitantes do sertão é um vestígio dos sacrifícios costumados entre os mais americanos.

(21) Sacrifício  O sacrifício é com efeito uma destruição da vítima, e, como expiatório, satisfazia à justiça com o sangue.

(22) Há senado.  Todos os que escrevem os costumes dos brasilianos confessam que presidem ao seu governo os anciãos e os príncipes das Tabas, ou aldeias: e que outra coisa é o senado.

(23) Tabus.  Assim chamam os brasilienses às suas aldeias. Veja-se o Dicionário da Gramática e língua Brasílica na sua voz Taba.

 (24) Ministros são.  Espécie de sacerdócio nos brasilianos; e consta que os povos concorrem para o seu sustento com ofertas.

(25) A sentença ele a dá.  Os autores da história brasílica descobrem nos bárbaros do sertão a lei célebre de Talião. Da mesma sorte lhes atribuem leis para punir o adultério e o incesto em primeiro e o segundo grau.

(26) A fé do matrimônio.  Martinière afirma que os brasilienses Celibes guardam alguma honestidade. Será dissolução da gente bárbara; mas as constante tradição de conjugarem-se em matrimônio é argumento de que repugna aos seus costumes a Vênus vaga e sem freio.

(27) Nos ofícios dos pais.  É a razão suficiente, por onde se faz ilícito o incesto. Repugna à pátria potestade servir à esposa e entregar-lhe o poder sobre o seu corpo, sendo ela sua filha, isto é, inteiramente sujeita ao seu domínio.

(28) Dos mortais a variedade.  Razão suficiente, por onde repugna aos direitos da sociedade o incesto em segundo grau. Impediria o comércio e confederação do gênero humano o restringirem-se os matrimônios aos irmãos; e naturalmente se restringiriam pela ocasião, se fossem lícitos.

(29) Sumé.  O padre Nóbrega, primeiro e insigne missionário do Brasil, refere quanto aqui dizemos do apóstolo S. Tomé. Veja-se o padre Antônio Franco na Imagem da Virtude, escrevendo a vida do mesmo Nóbrega.