Santo Antonio do Argoin

Discursos Rumos da diplomacia brasileira, 193,
da Academia Brasileira de Letras:
Santo Antônio de Lisboa, militar no Brasil, 1942
José Carlos de Macedo Soares

Como primeiro degrau da escalada gloriosa, que é a carreira militar póstuma de Santo Antônio de Lisboa, nenhuma cidade mais adequada que a religiosíssima Bahia, relicário de tradição católica brasileira.

Conta Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, pondo "a relação no arquivo do Convento" que no ano de 1595 uma frota de doze velas partiu do Reino de França para "tomarem e destruírem a cidade da Bahia, terra do Brasil", "em a qual vinham por capitães principais três franceses luteranos". Ao passarem em Arguim, pequena fortaleza africana, das muitas com que os portugueses orlavam as costas do continente negro, os hereges praticaram atos de cruel violência contra seus habitantes e suas igrejas. Apoderaram-se, por fim, de uma imagem de Santo Antônio, a qual, entre insultos e blasfêmias, foi embarcada em uma das naus, onde, durante a viagem, sofreu toda a sorte de zombarias, e mesmo golpes de espada, a ponto de ficar mutilada. Finalmente os hereges lançaram-na ao mar, para que o vilipendiado Santo de Lisboa "os guiasse" à Bahia, diz Rocha Pita.

Nesse mesmo dia, violento temporal acossava a frota herética fazendo naufragar quase todas as embarcações. Salvou-se a nau que conduzia o Santo, indo, porém, desgovernada, dar à costa do Brasil na altura de Sergipe. Salva a tripulação, foram todavia os náufragos presos e remetidos, por terra, ao Governador da Bahia, na época Dom Francisco de Sousa. Durante a penosa viagem pelas praias ardentes e intérminas, na altura da chamada Itapoã, a doze léguas da Bahia, os prisioneiros toparam com a imagem de Santo Antônio, que haviam roubado em Arguim, e dias antes lançado ao mar. Estava o Santo de pé apesar da areia movediça e de ser a praia batida constantemente pelos ventos. "Para tirar toda a dúvida que pudesse contradizer a tão grande maravilha, escreveu Jaboatão, buscaram mui de propósito se porventura alguma Pessoa humana o havia levantado em pé, o que não achando nem pegadas na areia de homem, por ser caminho não seguido, tomaram o Santo com muita devoção e veneração, e o traziam, mas achando um homem honrado no caminho que lhe pediu com muita importunação para o pôr em sua ermida, lho deram."

O donatário da imagem foi Francisco Dias de Ávila, Senhor da Casa da Torre de Garcia de Ávila, que a colocou na capela de seu solar.

Levados tais fatos "ao conhecimento dos Frades capuchos", continua Jaboatão, "o foram buscar à casa da Torre, e o trouxeram com muita selenidade para a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na Bahia".

A 23 de agosto de 1595 a imagem de Santo Antônio de Arguim foi conduzida da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda chamada dos Mercadores, para o Convento de S. Francisco, processionalmente, com a maior pompa, e solene assistência da Câmara e do Cabido.

No Convento de S. Francisco foi a Imagem de Arguim colocada no altar de Santo Antônio, que é nas igrejas franciscanas em que ele não é titular, o da parte da Epístola.


Padroeiro da Bahia e Soldado raso

A Câmara e toda a cidade tomaram o Santo por seu Padroeiro.

"Escolheram, afirma Jaboatão, por Patrão e primeiro desta cidade ao glorioso Santo, e isto por eleição da sua Câmara, como consta da Ordem do Governador do Estado Rodrigo da Costa."

"De tudo se deu parte a El-Rei que era então em Portugal o segundo Filipe, e terceiro em Castela, que havendo por bem ordenou se continuasse todos os anos, no que é o já referido da quarta Dominga do Advento, e o mesmo em que da Igreja de N. Senhora da Ajuda se transferiu em procissão para a do nosso Convento, a Sagrada Imagem, se faz a festa com assistência da Câmara e do Cabido, os quais juntos na Igreja a horas competentes da manhã, se ordena a Procissão que se costuma fazer antes da Missa Solene."

Informa Acioli que Santo Antônio de Arguim foi o primeiro padroeiro da cidade e "tinha o saldo de praça de soldado intertenido, na Fortaleza de S. Antônio da Barra".

Fr. Antônio de Santa Maria Jaboatão, Novo Orbe Serafico Brasilico ou Chrônica dos Frades Menores da Província do Brasil. Rio de Janeiro Ed. do IHGB. 1857. Vol. I, parte segunda, pág. 81.

Rocha Pita, História da América Portuguesa. 2a ed., Lisboa, 1880, pág. 100.

J.A.A. (José Álvares do Amaral), Resumo cronológico e noticioso da Província da Bahia. Bahia, 1885, pág. 169.

Jaboatão, op.cit., pág. 84.

Borges de Barros, À margem da História da Bahia. Bahia, 1934, pág. 71. Repete J.A.A. Resumo cronológico citado na nota 3.

Accioli nas Memórias históricas e políticas da Província da Bahia, tomo IV, págs. 127 e seguinte, publicou o requerimento do guardião Frei Francisco dos Anjos, e a certidão do Deão Pedro de Campos sobre os fatos sucedidos com a imagem de Santo Antônio de Arguim. Vide Jaboatão, op. cit., vol. I, parte 2a, págs. 86 e 87.

Jaboatão, op. cit., pág. 85.
Silio Boccanera Junior, Bahia histórica, Bahia, 1921, pág. 8.
Jaboatão, op. cit., págs. 90 e 322.
Jaboatão, op. cit., pág. 88.
Inácio Accioly de Cerqueira e Silva, Memórias Históricas e Políticas da Província da Bahia, Bahia, vol. IV, pág. 129.
Accioly, loc.cit., pág. 129.

(Santo Antônio de Lisboa, militar no Brasil, 1942.)

(In, Discursos Rumos da diplomacia brasileira, 193 _ José Carlos de MACEDO SOARES, da Academia Brasileira de Letras. Advogado, industrial, professor, político, diplomata e ensaísta, nasceu em São Paulo, SP, em 6 de outubro de 1883, e faleceu também em São Paulo em 28 de janeiro de 1968. Eleito em 30 de dezembro de 1937 para a Cadeira n. 12, na sucessão de Vítor Viana, foi recebido em 10 de dezembro de 1938, pelo acadêmico Ataulfo de Paiva. .)