Salvador, Bahia, 06/09/2003

O papel da Casa da Torre

Carlos Maurício Pires e Albuquerque Ardissone *

Aproveitando que nos aproximamos do Sete de Setembro, podemos refletir sobre aqueles que contribuíram para a afirmação da autonomia política do Brasil. Em geral, o brasileiro associa a independência apenas ao Grito do Ipiranga, como se, num passe de mágica, o país tivesse se desfeito do laço que o prendia a Portugal. A independência foi resultado de um processo histórico, uma sucessão de fatos que resultaram na libertação do jugo colonial e para o qual contribuíram uma série de personagens, quase apagados da memória nacional.

Na Bahia, desenvolveram-se algumas das mais importantes e sangrentas batalhas pela independência do Brasil. Controlada por tropas fiéis a Lisboa, Salvador insistia na resistência. Releva-se o papel desempenhado pela família Pires de Carvalho e Albuquerque, senhora e habitante da Casa da Torre, "o grave solar medievo, berço da família patrícia, plantado em pleno sertão baiano, em frente ao mar" (Memórias de Gastão Penalva).

Presentes no Brasil desde a chegada do primeiro ancestral, Garcia D`Avila, em 1549, - juntamente com Tomé de Souza -, e tendo laços sanguíneos com Caramuru e Paraguaçu, os Senhores da Torre, durante mais de três séculos, desbravaram o sertão nordestino, contribuindo de forma decisiva para a expansão territorial, além do marco de Tordesilhas. Foram os principais articuladores políticos, estrategistas militares e financiadores do movimento de independência na Bahia. Ao contrário de Labatut e Cochrane, mercenários contratados para lutar, se empenharam nas batalhas movidos pelo nativismo, arregimentando exércitos e impondo derrotas às tropas portuguesas.

Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, futuro Visconde de Pirajá, foi, segundo a descrição de Luiz Alberto Moniz Bandeira em "O Feudo", um "decidido e notório defensor da Coroa". Ajudou a sustentar a Guerra, inclusive disponibilizando de seus bens. Gozava de grande popularidade entre os habitantes da região e, por sua bondade e apelo popular, era conhecido como "O Santinho". Sua iniciativa nas batalhas de independência, em 1823, foi "decisiva, ao assenhorar-se, desde julho, dos pontos de Pirajá e outros naquela região, bloqueando a estrada dos Boiadas e não permitindo o abastecimento de Salvador, dominada pelos portugueses" (Luiz Alberto Moniz Bandeira. p. 435). Ignácio Accioli afirma que "grande herói foi sem dúvida Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, o primeiro a organizar um batalhão de guerrilha contra os portugueses (Memórias Históricas e Políticas da Província da Bahia - Volume IV. p. 100). Na condução de suas ações, o futuro Visconde de Pirajá, contava com os conselhos de seu tio, Joaquim Inácio de Siqueira Bulcão, Capitão-Mor da Vila de São Francisco, amigo e estrategista militar.

Os irmãos de Joaquim também contribuíram para a causa da independência. Antonio Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, Barão da Torre, ofereceu ajuda monetária e política, sendo o responsável pelo comando de um exército de mais de 3.000 caboclos e índios da região de Cachoeira, Santo Amaro e outras vilas do Recôncavo Baiano. Francisco Elesbão Pires de Carvalho e Albuquerque, Barão de Jaguaripe, além de grande literato, foi um hábil articulador político do movimento de independência e Presidente da Primeira Junta do Governo Provisório da Bahia. Enfim, resgatar o valor de personagens históricos é importante para o aprendizado cultural e amadurecimento político do Brasil. A restauração da Casa da Torre, em curso na Praia do Forte, é um sinal de que, aos poucos, nos conscientizamos de que possuímos um passado digno de ser transmitido às gerações futuras.

* Professor de Relações Internacionais da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.

 


MÍDIA E DESTAQUE