Quarta-Feira, 17 de Janeiro de 2001

Monumento documentado

Técnica de fotogrametria permite até a construção de uma réplica exata do
Castelo Garcia d'Ávila

Silvia Noronha

Das paredes da velha casa dos Garcia d'Ávila, em Praia do Forte, está surgindo um projeto inovador. O castelo baiano será o primeiro monumento brasileiro totalmente medido pelo processo de fotogrametria digital, que tira as medidas exatas de prédios através de fotos. Para dar exemplo da importância dessa tecnologia, se ela tivesse sido aplicada à Igreja da Sé, demolida em 1933, os baianos poderiam hoje ver uma réplica perfeita ou até reconstruir o tempo histórico. Como a fotogrametria digital é mais rápida e barata que os processos convencionais, ela poderá ser aplicada a muitos edifícios tombados, preservando para as gerações futuras a memória nacional.

O levantamento computadorizado do castelo Garcia d'Ávila está sendo realizado dentro do Projeto Documentação Precisa de Sítios Brasileiros, promovido pelo Ministério da Cultura e Instituto Militar de Engenharia. Depois que o trabalho for completado, outros técnicos brasileiros terão um modelo, uma referência para fazer trabalhos de fotogrametria digital. Esse processo é mais rápido e barato que os anteriores. No caso do Castelo Garcia d'Ávila, por exemplo, o levantamento demoraria seis meses e custaria US$100 mil. Hoje, o mesmo trabalho é feito em cerca de 20 dias, ao custo de US$5 mil.

A diferença está no uso de novos programas de computador. Eles mantêm o princípio básico da fotogrametria arquitetônica: tirar duas fotos de um ponto-alvo marcado na parede, de ângulos diferentes, e combiná-las para definir as linhas e planos do desenho das fachadas. Antes, porém, esse trabalho exigia câmera especial métrica e um minucioso trabalho de determinação de uma poligonal em volta do prédio, de onde tiram-se as fotos. Hoje, elas podem ser tiradas de uma câmara fotográfica comum, de qualquer lugar. O computador calcula as distâncias automaticamente.

O engenheiro Christóvão Dias de Ávila, coordenador da equipe técnica que está fazendo o levantamento do castelo, diz que a preservação do patrimônio, especialmente os monumentos tombados, é uma preocupação mundial. "É uma maneira de preservar os monumentos através da imagem antes que eles se deteriorem", afirma o engenheiro, que tem ainda um motivo pessoal para caprichar no trabalho de documentação do castelo de Praia do Forte - ele é descendente direto da família de Garcia d'Ávila.

Fechado para visitas

As ruínas do castelo de Garcia d'Ávila estão fechadas para visitação desde o dia 15 de janeiro, por causa das obras de restauração que estão sendo realizadas no local. Com o movimento de máquinas e operários, fica inviável e perigosa a presença de visitantes. O castelo será reaberto no dia 30 de março, mas o resultado da recuperação do edifício só será apresentado ao público no final do semestre. Construído entre 1551 e 1624, a casa de Garcia d'Ávila é considerada a primeira grande edificação portuguesa no Brasil.

Mas a região do castelo esconde um passado ainda mais remoto, do tempo da pedra lascada. "É o sítio arqueológico mais importante do Brasil", destaca o arqueólogo Ivan Dórea Santos, que fez o levantamento juntamente com o trabalho de fotogrametria. Ele diz que peças pré-históricas e machados de pedra foram encontrados no local, que já abrigava uma roça de mandioca antes da chegada de Thomé de Souza.

 

(http://www.casadatorre.org.br)