Quarta-Feira, 04 de junho de 2000

 

Casa da Torre: resgate da forma original
Restauração preserva cenário do castelo em ruínas


Foto Haroldo Abrantes

Andréa Nascimento

A saga dos D'Ávila agora tem uma boa oportunidade de sair do circuito de historiadores e estudiosos para atingir um público mais amplo. A expectativa da Fundação Garcia D'Ávila, que detém o direito sobre as terras, é que pelo menos meio milhão de pessoas visitem por ano a Casa da Torre, após as obras que estão sendo realizadas no monumento, tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural do Brasil desde 1938. Parte da estrutura, já em ruínas, está sendo apenas estabilizada, por falta de plantas e informações que permitam recompor a forma original do castelo. A capela e dois cômodos contíguos em melhor estado estão sendo restaurados. O custo da obra é de R$4,5 milhões, patrocinados por Petrobras, Eletrobras e BNDES. Ao contrário de outras iniciativas naufragadas, esta pode ser uma boa maneira de comemorar os 500 anos do descobrimento do Brasil.

O projeto inclui a construção de um centro de apoio ao turista, que abrigará três exposições. Uma vai contar a trajetória da família e do castelo. Outra vai expor os achados arqueológicos feitos na área do Parque Garcia D'Ávila. O processo de recuperação do sítio histórico, que envolveu tecnologias de ponta, será o tema da terceira mostra. A infra-estrutura do parque vai contar, ainda, com um estacionamento de 124 vagas, auditório e um belvedere com lanchonete e loja de souvenir.

Uma das principais atrações será a capela, única parte do castelo que vai recuperar o aspecto original, revelando seus relevos, cores e figuras pictóricas. As imagens de terracota de São Francisco e Santo Antônio foram recuperadas, e até desenhos de barcos e baleias nas paredes da igrejinha, feitos provavelmente por pescadores em época indefinida, foram resgatados e devem ser mantidos. O restante da construção mereceu um moderno trabalho de consolidação para evitar que desapareça o que sobrou da Casa da Torre. Estão sendo utilizadas técnicas como a reversibilidade, que permite a troca ou retirada do material utilizado. "Se algum dia acharem as plantas do castelo e quiserem reconstitui-lo como era, é só retirar a estrutura que estamos colocando", explica o engenheiro e gerente das obras, Luiz Carlos Arnaut.

Um exemplo são as arcadas refeitas em fibra de vidro e as passarelas - que permitem visualizar o castelo de cima, integrado com a paisagem de mar e coqueiros da Praia do Forte. "Será possível apreciar toda a grandiosidade da construção", diz Franklin Mira. Em alguns momentos, o processo é extremamente delicado. Para fixar trechos do reboco original do castelo sem usar materiais que interferissem no visual, se aproveitou um resíduo transparente gerado na produção da cal. O produto foi aplicado duas vezes por dia, religiosamente, durante um mês inteiro até alcançar o efeito desejado. Nas paredes que estavam praticamente ocas, se utilizaram bombas de baixa pressão para injetar cal e areia. Uma parede quase solta foi reforçada com uma costura de aço. "É um trabalho apaixonante", resume Arnaut. Para valorizar o resultado de tanto esforço, a arquitetura da Casa da Torre será ressaltada por uma iluminação especial para monumentos.