Salvador, Bahia, 1999-01-27

Abade pede reforma da Igreja da Graça

Maria de Fátima Dannemann

Uma das mais antigas igrejas da cidade – a da Graça – precisa de reforma com urgência. Justamente no dia da missa que marcou os 410 anos de falecimento de Catarina Paraguaçu, o abade do Mosteiro de São Bento, dom Emanuel Amaral, chamou a atenção para a necessidade de restauração do antigo templo, que, além de ter sido o primeiro santuário mariano do país, é um monumento histórico de grande importância. “Precisamos aproveitar os 450 anos da cidade para pedir a restauração da igreja, construída a partir dos sonhos de Catarina Paraguaçu, a mulher que deu origem à própria história do país”

A missa foi concelebrada pelo capelão da igreja, dom Bernardo Lucas. Estavam presentes ao culto o jornalista Jorge Calmon, presidente de honra do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, e descendentes da índia, princesa da tribo Tupinambá que se casou com o náufrago português Diogo Álvares, o Caramuru, e converteu-se ao cristianismo. Um deles, Christóvão Dias de Ávila Pires Júnior falou aos presentes sobre sua antepassada, no final da missa. Após a cerimônia, houve o descerramento do brasão da igreja na sacristia.

Cultura machista
Dom Emanuel disse durante o sermão que uma cultura machista impede que os brasileiros conheçam um pouco mais sobre a vida de Catarina Paraguaçu. “Se olharmos a história do Brasil, é ela quem dá origem ao nosso povo. Catarina foi uma presença marcante, um paradigma para todas as mulheres por sua iniciativa, sua obra e sua vida”.
Por muitos anos, entretanto, a princesa índia, que viveu até 26 de janeiro de 1589 e tinha seu santuário visitado pelos governadores-gerais e nobres da época, ficou esquecida dos poderes públicos e o resultado é a deterioração do seu templo: em todos os cantos se vê que a madeira e as paredes estão mofadas e cheias de infiltrações, o que pode pôr em risco, futuramente, a pintura do teto, que reproduz as visões que Catarina tinha da imagem, a qual seria depois encontrada por Caramuru, permanecendo até hoje no altar-mor do templo.
Apesar da importância histórica e do sangue nobre que corria nas veias familiares de Catarina (filha do cacique e portanto uma princesa), apesar, inclusive, das homenagens que a índia receberá no Carnaval do qual é personagem-símbolo, a missa foi simples. Mas contou com um grande número de presentes, não só familiares, como a comunidade do bairro, a antiga Vila Velha dos tempos coloniais.
De acordo com Christóvão de Avila, um dos descendentes da índia, Catarina se tornou cristã em 1528, quando foi batizada em Saint Malo, França, onde recebeu o nome de Catarina do Brasil. “Foi ela quem ordenou aos índios o reconhecimento da soberania do rei de Portugal e é considerada um símbolo de congraçamento racial”. A primeira ermida foi construída em taipa, no ano de 1530. Telas na sacristia da igreja retratam sua vida e obra. Antes de morrer, Catarina doou a capela e terras vizinhas aos beneditinos, que até hoje administram a igreja.



Patrimônio:

 

(http://www.casadatorre.org.br)